Sé Catedral

NOTA ARTÍSTICA

A catedral de Idanha a Velha, integra em si diversos momentos da história da período romano ao visigótico, do islâmico e cristão do período da reconquista. Todos estes tempos permitiram modelar o edifício em questão, dando-lhe uma contorno muito pouco comum.

O edifício no seu exterior é composto por dois volumes de diferentes alturas. O acesso ao interior é feito por intermédio de dois portais laterais, junto a cada um dos batistérios e um outro de maior aparato. inserido num gablete com arco quebrado e de empena triangular, o portal ostenta algumas peças escultóricas que permitem perfeitamente identificar a intervenção deste espaço em tempos  de D. Manuel I : na parte superior da empena as armas de portal e esfera armilar, sobre estes dois elementos, surge a figura de Cristo Crucificado.

Internamente, o edifício manteve a sua estrutura. composta por três naves, separadas por intermédio de colunas onde assentam de sete arcos em ferradura.

No interior deste edifício , encontra-se ainda um conjunto de pintura mural que se reparte por vários pontos da estrutura arquitetónica. A ladear o arco triunfal do lado esquerdo, que parece representar uma Santa Catarina (?), e S. Sebastião (?) e que revela, apesar dos estragos, uma boa qualidade de desenho (data c. 1495-1504). Quanto aos temas que decoravam a pilastra do lado oposto (direito), apresenta um estado de degradação não permitindo qualquer identificação.

Sobre o arco triunfal encontra-se a muito usual representação de um Calvário – o qual corresponderá já a um período ligeiramente posterior (c.1520-1540), assim como a pintura que decora o interior da capela-mor, um S. Bartolomeu, cuja figuração segue os modelos da iconografia tradicional, inspirada nos hagiológios, como o de Jacques de Voragine. O santo representado tem agrilhoado aos seus pés a figura do Diabo em tons ocre e terra queimada. Representado de corpo interior de forma hierática no espaço cénico, verifica-se uma certa rigidez corporal e das vestes e com inabilidade de representação do Diabo.

Interessante é a moldura decorativa que enquadra a representação do santo, que não esconde o seu gosto mudéjar, a comprovar mais uma vez as relações e influências recíprocas que se estabeleciam entre os diversos artistas da região aquém e além-fronteiriça.

Na capela contígua, do lado da epístola, encontra-se ainda uma interessante pintura de grottesche, datada de 1593, com figuras angélicas e outras de carácter fantasista apresentam os símbolos da Paixão, em registos pictóricos sobrepostos mas, o facto de a maior parte desses registos ter desaparecido, não nos permite fazer uma leitura global da obra, apesar de lhe reconhecermos as qualidades estéticas.

Data: IV/VIII/IX/XVI/XX

Autor: n/s

NOTA HISTÓRICA

Idanha-a-Velha, foi na era romana uma cidade conhecida por Civitas Igaeditanorum. Antes de ser cidade, foi município, e acredita-se ter sido fundado em 60 a.c. por Júlio Cesar. A 14 a.c. já havia referência a Civitas Igaeditanorum numa inscrição honorifica de um relógio de sol oferecido à cidade. Das ruínas desta cidade destaca-se o fórum e vários monumentos de culto, entre eles um templo dedicado a Vénus, cujas ruínas serviram mais tarde de suporte para a torre construída pelos templários no século XII.

Com a queda do Império, coloca-se a hipótese de sido invadida entre os anos 409 e 420 pelos Suevos, Alanos e Vândalos durante a expansão para Bética, que em pouco tempo conquistaram uma parte significativa do território. No período paleocristão, instala-se diocese suevo-visigótica, sendo desse período os batistérios.  Apesar de muitas dúvidas e interrogações em torno deste espaço, Fernando de Almeida, pioneiro no estudo deste espaço em meados do século XX afirma que este espaço foi uma catedral visigótica.

Em relação a catedral não existe consenso sobre a cronologia e até ao modo do seu funcionamento. É colocada a hipótese de uma fundação no séc. IV, mas, é com criação do bispado da Egitania – transferido posteriormente para a cidade da Guarda – por Teodemiro, rei dos Suevos, que surge a edificação da catedral do batistério e do hipotético paço (c.585). Deste tempo paleocristão são visíveis os batistérios que se encontram nas extremidades do respetivo edifício.

Apesar das diversas opiniões dos autores acreditam tido a sua primeira edificação no final do século VI, sendo mais tarde convertida em mesquita aquando da invasão dos muçulmanos. Em 713 Idanha foi conquistada e destruída pelo mundo muçulmana, sendo que só na segunda metade do século IX é que foi reconstruída e fortificada devido a determinados episódios militares por Ibn Marwan. Também a antiga catedral vai adotar planimetria islâmica.

Nos finais do século IX, altura em que Afonso III terá conquistado a cidade, surge documentado a existência de um bispo na Egitânia. Colocando-se a hipótese do edifício ter se convertido numa basílica moçárabe, eventualmente devida a Ibn Marwan e a possibilidade da existência de aliança entre Cristianismo e Islamismo.

Após a reconquista cristã foi novamente convertida em igreja, sendo doada aos templários por D. Afonso Henriques, em 1165. Com D. Sancho I ergueu uma nova Catedral na Guarda, transferindo assim a diocese Egitaniense. Devido ao abandono da localidade, D. Sancho concede foral, em 1229, tentando assim a sua revitalização.

Com a extinção da Ordem dos Templários o rei D. Dinis, em 1319,  este território passou para as mãos da milícia de Nosso Jseus Cristo, criando-se para o efeito a comenda de Idanha-a-Velha, tendo em vista a criação de terra-tenentes, mas também procurando criar uma estratégia que fomentando uma de revitalização desta geografia, visto que década após década, Idanha-a-Velha vai desertificando-se. Contudo, todos os incentivos que se instituíram não surtiram efeito.

Apesar dos impulsos régios que foram sendo concedidos a este território, o facto é que Idanha a Velha não consegue contrariar o abandono. Em 1497, D. Manuel ordena obras de renovação à igreja que já se encontrava parcialmente enterrada. Com as obras houve novamente uma mudança na orientação da planta, passando o edifício a ter três naves, surgindo um novo portal a norte, e novos altares dedicados a Santo António e a São Sebastião.

Mais tarde foi criada a capela da Nossa Senhora do Rosário (1589) e aberto uma nova porta a sul (1593).

Em meados do século XX, o edifício estava em ruínas, inclusivamente não tinha grande parte do telhado. Em 1955 foi iniciada um amplo trabalho de recuperação do edifício, tendo   Fernando de Almeida como figura chave para que o edifício tenha chegado até nós com todas estas características.

Referências Bibliográficas:

ALMEIDA, Fernando de – Egitânia, História e Arqueologia. Lisboa: 1956;

ALMEIDA, Fernando de, “Notas sobre as Primeiras Escavações em Idanha-a-Velha”. Actas do XXIII Congresso Luso-Espanhol. Coimbra: Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências, 1957.

ALMEIDA, Fernando de – Ruínas de Idanha-a-Velha, Civitas Igaeditanorum. Egitânea – guia para o visitante. Lisboa: 1977

FERNANDES, Paulo Almeida – «Antes e depois da Arqueologia da Arquitectura: um novo ciclo na investigação da mesquita-catedral de Idanha-a-Velha». ARTIS. Lisboa: Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, 2006, n.º 5, pp. 49-72;

FERNANDES, Paulo Almeida – «O primeiro restauro da Mesquita-Catedral de Idanha-a-Velha, a propósito de uma nota inédita de Fernando de Almeida». Revista Raia. Castelo Branco: 2000, n.º 21, pp. 42-47;

FERRO, Maria José Pimenta – As doações de D. Manuel, Duque de Beja a algumas igrejas da Ordem de Cristo. Lisboa: 1971

GONÇALVES, Iria (coord.), Tombos da Ordem de Cristo. Comendas Sul do Tejo. Lisboa: Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2009, vol. 5;

HORMIGO, José Joaquim M. – Visitações da Ordem de Cristo em 1505 e 1537. Amadora: 1981

TORRES, Cláudio – «A Sé – Catedral da Idanha». Arqueologia Medieval. Porto: 1992, vol. 1, pp. 169-178;

TORRES, Cláudio, «Idanha-a-Velha – Sé-Catedral, antiga mesquita» Terras da Moura Encantada. Lisboa: 1999, p. 68; TORRES, Cláudio e MACÍAS, Santiago – O legado Islâmico em Portugal. Lisboa: 1998.

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5882

Referências Documentais: