Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição

NOTA ARTÍSTICA

Embora se identifique no seu substrato uma raiz vernácula e um contorno medieval, a igreja de Nossa Senhora da Conceição de Salvaterra do Extremo, renovou-se no século XVI, onde os apontamentos clássicos conferem ao edifício um discurso moderno.

O edifício é composto por uma única nave, capela-mor e sacristia (lado do Evangelho). A fachada do edifício, da segunda metade de quinhentos, foi renovada, rasgando-se um portal, com um vão de volta perfeita delimitado por pilastras de capiteis jónicos, onde assenta um pequeno entablamento e dois pináculos. Ainda na fachada, sobre o portal rasga-se uma varanda em grelhagem em granito e com arco de volta perfeita. Esta varanda tem-se acesso a partir do coro alto, a sua construção confere ao espaço da fachada principal um valor teatral.

O portal que é plasmado na fachada principal da matriz de Salvaterra do Extremo, tem de ser entendido à luz da tratadística que neste período já circula neste território (embora em número diminuto). Apesar da rudeza do granito e a dificuldade do seu entalhe, o traço e a execução deste portal revela um bom risco e um bom manejo do cinzel, que ultrapassa a bitola regional, por outro lado, também é de referir o gosto de uma clientela conhecedora destes modelos. O modelo, portal e varanda, não só é aplicado nesta igreja como é replicado na fachada principal da igreja da Santa Casa da Misericórdia.

Adossada a fachada principal, do lado da Epistola, corre a imponente torre sineira, com o seu respetivo sino. Esta também é uma obra da segunda metade de quinhentos e tem sido atribuída a Pêro Sanches, tal como o desenho da fachada principal. A este mestre-de-obra, natural de Castelo Branco, são imputadas um conjunto de empreitadas significativas na Beira raiana (Paço de Castelo Branco ou igreja matriz de Idanha-a-Nova) e na localidade de Abrantes.

Portal lateral, do lado da Epístola, é composto e fenestrações que iluminam o interior de templo e no eixo da nave abre-se um portal de gosto também maneirista com o seu frontão interrompido.

O interior de nave única, provida de coro-alto, detém um conjunto retábulos de diferentes mãos, onde sobressai o retábulo barroco de capela-mor de talha dourada.

Séc. XV/XVI/XVIII

Autor: Arquiteto: Pêro Sanches (séc. 16). Douradores: José Ramos (séc. 18); Manuel Gomes Calado (séc. 18).

NOTA HISTÓRICA

O território onde se insere a igreja de Nossa Senhora da Conceição da Salvaterra do Extremo, confunde-se com a história da nacionalidade e com todo o processo da reconquista que foi levado a cabo pelos primeiros reis. Segundo relata Mário Andrade, foi D. Afonso Henriques doou, em 1165, este território fronteiriço aos Templário, na pessoa de Gualdim Pais, deste modo poder-se-ia dominar, primeiramente, as incursões muçulmanas vindas do Sul, mas também dominar a fronteira face aos ataques levados a cabo pelo território adjacente. Apesar destes dados e da importância estratégica deste local, é D. Sancho II que atribui foral a Salvaterra do Extremo, por certo, esta atribuição deve ter dinamizado o território.

É conhecido episódio de 1307, que envolveu D. Vasco Martins de Alvelos, bispo da Guarda, da contenda que impulsionara contra a Ordem do Templo pela posse de das localidade de Idanha-a-Velha e de Salvaterra, acusando pertencerem à sua Sé, indicando terem sido obtidas pelos cavaleiros de forma fraudulenta.

Em consequência deste episódio, foi D. Dinis que acabou por colocar nas mãos da coroa Salvaterra do Extremo, promovendo-se a renovação da estrutura fortificada. Ao mesmo tempo, não é possível esquecer, como resultado da extinção da Ordem do Templo e o nascimento da milícia de Nossa Senhor Jesus Cristo, a localidade vai ser comtemplada com a instituição de uma Comenda. Esta localidade, tal como tantas outras nesta zona de fronteira, modernizou-se no século final do século XV e início do século seguinte, levando a uma renovação dos seus edifícios.

Já sob governação de D. Manuel I, Salvaterra do Extremo, em 1510, recebe novo foral e em sequência desta atribuição o monarca oferece à igreja de Nossa Senhora da Conceição uma caixa de damasco branco, conforme se lê no auto de visitação de 1536:Item outra caxa de damasco branco e rota e velha com sastro de veludo ama lo franjado branca e vermelho que deu EI Rey Dom Emmanuel que santa gloria aja.

É nessa primeira década que se renova esta igreja, facto visível pelo desenho elaborado por Duarte de Armas quando se desloca a esta localidade (1509) para registar o seu castelo. Como faz notar o escudeiro da Casa Real,  existe uma igreja que estava em construção, conforme se lê em nota à margem, igreja que nõ he acabada é composta de capela-mor acabada e telhada e a caixa murário do corpo da igreja, contudo  inexistência de cobertura e o seu enorme arco triunfal. Também, o desenho representa, no meio do casario, uma torre sineira com a representação no topo de cruzes (Duarte de Armas, ao longo do seu levantamento marca sempre desse modo o espaço sagrado), será este, e não a igreja que se encontra por finalizar, a igreja matriz de Salvaterra do Extremo.

Pela leitura do auto elaborado por frei António de Lisboa, 1536, e através das suas apreciações, a igreja matriz encontrava-se em muito boas condições, por certo devido a alguma campanha de obras levada a cabo anteriormente.

A igreja composta de nave e capela-mor, essa era muito bem construído. A fachada do edifício da quinhentista, composto de alpendre de três colunas de boa qualidade em pedra. A porta travessa, designada por porta do sol (voltada a nascente), também é provido de um alpendre. Afastado do edifício encontra-se um campanário, segundo o visitador, é bastante horrado (…) todo de pedraria.

A nave, com um bom coro de castanho de parede a parede, tem um púlpito de bom desenho. O arco triunfal, pintado e de boa pedra tem, colateralmente, altares forrados de azulejos, do lado da Epístola ergue-se o altar dedicado a São Sebastião e no lado oposto um dedicado a Santa Catarina. Sobre o arco triunfal ergue-se um grupo escultórico, de vulto, composto de Cristo crucificado, a Virgem e São João.

A capela-mor, com a sacristia no lado Evangelho, he muito boa e mais alta que ho corpo da egreja huu covado huu covado e mais muito espaçosa e bem forrada de castanho com seus emtovolamentos cordões. Tinha um retábulo antigo e aberto de tres peças e as imagães e pimturas quasy que se nom emxergam e tem hy huua jmagem de Nosa Senhora de vulto.

Como comenda e a igreja de Salvaterra do Extremo, como sua cabeça , tinha como, 1558, o comendador Lourenço Pires de Távora, este usufruía o valor de 150.000 reais (em 1554 era comendador de Pias, rendendo esta 60.000 e tinha, desde 1541, a comenda de São Silvestre de Requião, do Arcebispado de Braga, avaliada em 106.000).  No registo de comenda de 1563-1564, tendo como anexa a igreja de Monfortinho, o comendador, que continuava a ser Lourenço Pires de Távora, que levava os dous terços dos dízimos.

Será no governo deste comendador que se terá começado a diligenciar a campanha de obras que confere uma modernidade ao primitivo edifício de Salvaterra do Extremo. O responsável por essa campanha é Pêro Sanches, cabe-lhe a construção do campanário e a renovação da fachada principal, com o seu varadim em granito, mas sobretudo o portal principal, onde impera  uma linguagem clássica e a sua execução é similar ao portal principal da igreja de Santa Casa da Misericórdia da mesma localidade, denunciando a mesma fonte e possivelmente a mesma mão, a de Pêro Sanches.

Em 1724, a 5 de junho, é estabelecido, em Castelo Branco, uma escritura de fiança para a execução da obra do retábulo e tribuna da igreja de Salvaterra do Extremo. Foi Manuel Gomes Calado, dourador do Tortosendo e José Ramos, José Ramos, morador na mesma localidade, que arremataram, por quatrocentos e quarenta e seis mil reis, a obra do retábulo-mor e respetivo douramento por quatrocentos e quarenta e seis mil reis.

As Memórias Paroquiais informam, 1758, que a igreja era constituída por sinco altares a saber capela mayor com sua tribuna feita de talha de relevo aonde está o santissimo sacramento e a dita Senhora no trono da dita tribuna e nos lados desta Sam Domingos e Sam Francisco em hum dos colaterais a parte direita está huã imagem de Christo Crucificado e em da esquerda a Senhora do Rozario aonde estáerecta huã Irmandade das Almas (…) imagens Sam Pedro e a Sam Sebastião e da parede da esquerda outra de Sam Miguel, nos lados tem as imagens de Santa Barbara e Sam Joam todas estão estofadas e os altares dourados com talha moderna e a igreja he de hua so nave.

No século XVI, a igreja de Salvaterra do Extremo é descrita da seguinte forma (1537):

“Em os x dias do mes de outubro de 1537 annos foi visytada a egreja de Sanctaa Maria que esta em a villa de Salvaterra de que the comendador dom Graçia d’Albuquerque. Esta egreja esta demtro na villa e o corpo della Ihe comprido dezasate varas e de larguo seis varas e meya e tem sua pia de bautizar de pedra em o logar comum/ tambem outra d’agoa bemta/e huum pulpito de pedra boom/ E sobre a porta primcipll tem huu muito boom coro de castanho de parede a parede e he de larguo tres varas menos sesma

Item toda a fromtarja da cruzeiro he pintada com moor parte da dita egreja de arrezoadas pimturas/e o cruzeiro he de pedraria boom/ E tem dous altares forrados d’azulejos com seus degraos diante bem feitos e o da mao dereita he de Sam Sebastiam o outro de Sancta Caterjna/e na linha mais chegada ao cruzeiro esta huu crucifixo com a jmagem de Nosa Senhora e de Sam Joam de vulto E no cruzeiro estam huamas boas grades de castanho pintadas d’altura de huu omem toda esta egreja esta bem forrada de castanho de novo/

Item ha capella desta egreja he muito boa e mais alta que ho corpo da egreja huu covado e mais muito espaçosa e bem forrada de castanho com seus emtovolamentos cordões com huua armas pintadas na frontaria e he de comprido cinquo varas e outro tamto de larguo/e diamte o altar moor tem quatro degraos de parede a parede/

Item o altar he forrado d’azulejos e de comprido duas varas e huua de alto e outra de largua/ E nelle estaa huu Retavolo antiguo aberto de tres peças e as imagien e pimturas quay que se nom emxergam e tem hy huua jmagam de Nosa Senhora de vulto.

Item na mesma parede do altar a maão esquerda tem huu sacrarjo metido na perede pintadoce tem huas boas corediças//

A capelle he ledrilhada e a egreja bem argamsada.

Item aparte esquerda da capella tem huua samcrestia forrada e ledrilhada com bõos almarios de castanho/ he de comprido tres vares e meia e de largo duas e terça

Item afastado da dita egreja tem hu bom e honrrado campanairo todo de pedrarias com dous synos de bõo tamanho e arrezoados.

Item sobre a porta primcipall tem huu bõo alpendere lageado com tres colunas bem feitas de pedra e he de comprido sete vares e meia de larguo tres e terça

Item sobre a porta do sol tem outro alpendre em dous esteyos de pedra e tem de longuo seis varas e de larguo duas varas e meja/

Item huua cruz de prata dourada per partes de seis marcos he do Concelho

Item tres calezes de prata que derom de esmola custa do Concelho.

Item huua custódia de prata dourada de cinquo marco que he do Concelho.

item huu tribolo dareme arezoado

Item seis castiçees d’areme

Item huu caldeira d’agos benta

Item huua bacia pera a oferta

Item huua alampada de frandes

Item outra alempada do Sacramento/

Item huu Roda de campainhas

Item outra campainha no foro da egreja

Item outra campainha de mãao

item quatro galhetas destanho

Item huua caxa de damasco pardo com satro de veludo amarello franjado de Retros aleonado e pardo forrado de bocasim amarelo e no capello as armas do comendador e esta he nove e boa.

Item outra caxa de damasco branco e rota e velha com sastro de veludo ama lo franjado branca e vermelho que deu EI Rey Dom Emmanuel que santa gloria aja.

item huua vestimenta de cetim amarello com saastro d veludo preto framjade de preto amarello forrada de becasim emmcamado com as armas do comendador.

Item outra vestimenta de veludo verde com savastro de brocadilho com figura he velhae deu ao Concelho.

Item outra vestimenta de pano prnto com hdua cruz de pano da India.

Item outra vestimenta de zarzagenja

Item outa vestimenta preta da caresma

Item outra vestimenta de chamalote proto barrada de veludo preto franjada de proto brenco/

Item huu paleo quasj novo de demasco amarello framjado de branco e vermelho que deu o Concelho.

Item huu fromtall de chamalote tbrenco azull framjado das mesmas cores”

Referências Bibliográficas:

COSTA, António Carvalho da, Corografia Portugueza, e descripçam topográfica do famoso reyno de Portugal (…). Tomo Segundo, Officina de Valentim da Costa
Deslandes, Lisboa, 1708

GOMES, Saúl António, A Extinção da Ordem do Templo em Portugal. Revista de História da. Sociedade e da Cultura da Universidade de Coimbra, 2011, pp. 75-116

GONÇALVES, Iria (coord.), Tombos da Ordem de Cristo, Comendas da Beira Interior Sul (1505), vol. V, Lisboa: Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2009.

HORMIGO, José Joaquim, Visitações da Ordem de Cristo em 1505 e 1537, Castelo Branco, ed. do Autor, 1981.

HORMIGO, José Joaquim, Arte e Artistas na Beira Baixa, Castelo Branco, ed. do Autor, 1998.

VICENTE, Maria da Graça Antunes Silvestre, Entre Zêzere e Tejo Propriedade e Povoamento (séculos XII-XIV). Volume I, 292p., tese de doutoramento em História
Medieval, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2013

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=2485

Referências Documentais:

ADCTB, Cartório Notarial de Castelo Branco, mç. 1, lv 5, 34

ANTT, Mesa de Consciência e Ordem,  Ordem de Cristo/Covento de Tomar, lv. 240, fl.23

ANTT, Mesa de Consciência e Ordem,  Ordem de Cristo/Covento de Tomar, lv. 19, fl. 46.

BN, COD. 413 -Título das comendas dos Mestrados das ordens de Christo e d ́auis que ha neste b[is]pado da guarda com aualiaçam das Remdas de cada hu[m]a delas dos Annos de 1563 e de 1564