Igreja Matriz de São Tiago

NOTA ARTÍSTICA

A igreja São Tiago de Penamacor, apesar dos seus contornos medievais, é fruto de uma intervenção em meados do século XVI, dotando este espaço arquitetónico de uma linguagem moderna, recorrendo, sobretudo, à tratadística do renascimento, quer ao nível do portal quer aos elementos estruturais e decorativos do seu interior (apesar das intervenções efetuadas nos séculos seguintes, antiviral grande parte destes elementos). O edifício é composto na sua essência por uma planta de três naves, capela-mor e sacristia. Adossado ao edifício, na fachada lateral que corresponde à Epístola, ergue-se uma torre sineira, onde se encontra, cronografada, a data de 1610.

Fachada principal, de empena triangular, tem um ritmo marcado pelos contrafortes, que engloba um portal concebido ao romano, recorrendo o arquiteto ao tratado das Medidas del Romano, de Diego de Sagredo para copiar o modelo. Do mesmo modo, configuração decorativa das bases toscanas das colunas e também dos capiteis de enrolamentos, recorrem à mesma obra para a sua composição.

Sobre o entablamento do portal, abre-se um nicho com a figura de São Tiago. Contudo, esses elementos são fruto de uma modificação da fachada no século XX, visto que nesse local, até às primeiras décadas corria uma varanda (sobre todo o portal) com o seu janelão, dando acesso ao coro alto.      

A fachada principal denuncia o respetivo interior. Composta por três naves e coro-alto, a separação das naves é realizada por intermedio de colunas e arcos de volta perfeita. Uma vez mais, é notório o discurso do arquiteto para a conceção deste espaço. Para tal recorreu, uma vez mais, ao tratado de Diego de Sagredo para reproduzir a linguagem formal dos capitéis bases e da base das colunas.

Numa das bases das colunas encontra-se representada as armas de Simão de Meneses, composto na parte superior por cinco quinas e inferior flores de lis.  Simão de Meneses, é em meado século XVI, o comendador da Ordem de Cristo, em Penamacor.

Estas bases têm inscritas cartela decorativas, que não se encontram nas Medidas del Romano, mas sim, da obra de Heinrich Vogtherr (Livro de arte muito útil para todos os pintores, entalhadores, ourives, pedreiros, carpinteiros, encanadores, armeiros etc..,) de 1530. Voltando ainda ao Diego de Sagredo, o tratado serviu ainda de fonte gráfica para a conceção da coluna do púlpito.

Séc. XVI / XVII / XIX

Autor: n/s

NOTA HISTÓRICA

A importância de Penamacor revela-se logo no século VIII, quando o episcopado abandona a Idanha-a-Velha e fixa-se em Penamacor (isto acontece antes da sede de transitar para a Guarda). A presença e a importância eclesiástica da localidade, leva a que o bispo D. Martim Pais aqui fixe a sua residência  (1202). Porém, ao longo da Idade Média, Penamacor vai perdendo a sua importância e em 1260, vai integrar o bispado da Guarda.

Ao longo da Idade Média, a localidade de Penamacor vê a sua população aumentar e consequentemente o seu casario vai ultrapassar o recinto muralhado. Facto que não escapou ao olhar de Duarte de Armas, quando, em 1509-1510, realiza os desenhos do Castelo de Penamacor e revela o amplo urbanismo de Penamacor (neste período o poder encontrava-se nas mãos do alcaide-mor, Joham Roiz Ribeyro).

É neste contexto de desenvolvimento que encontramos, bem no centro de Penamacor a igreja de São Tiago.

O ano de 1555 – data cronografada no portal -, tem sido apontado como sendo a data provável da sua  construção. Contudo, a sua história é certamente bem anterior, possivelmente ligada ao desenvolvimento que acontece no século XIV, porém, a este respeito, historiografia tem tido dificuldade em esclarecer a questão.

Tendo como orago S. Tiago, este espaço encontra-se certamente ligado ao Caminho de Santiago de Compostela, pois sabemos que por esta localidade passava um dos trajetos, que depois prosseguia até por Almeida, Escalhão, Santa Maria, Freixo de Espada à Cinta e Bragança.

Em 1564 a igreja é referida como sendo da Ordem de Cristo através de uma comenda, veja-se:

Iº da ygra de santjago da villa de penamacor e suas anexas Comenda da ordem de Xpo [Cristo]

Igreia de Santiagou da villa de penamacor e suas anexas he comenda da Ordem de xpo. he dela comendador dom Simão de Meneses e he vigro da dita igreia Bras Goumez leva o ditto comendador dous terços dos dízimos & o bpo leva huu terço.

Ende, ao dito comendador os dous terços que leva dos dízimos com promicias próprios guado, lam , linho vinho e outras meunças em cada hum Anno tiradas as despesas Ordinarias necessárias Comforme ao regimento e asy o salario do vigário trezemtos e dezoito mil seiscentos e cinquenta rs

O comendador,  D. Simão de Meneses, encontra-se sepultado no Convento de Santo António de Penamacor, tendo o seguinte epitáfio “Aqui jaz D. Simão de Menezes, Comendador que foi de Santiago desta vila, faleceu no primeiro de Junho do ano 1576” – conforme refere a Chrónica da Santa Província de Nossa Senhora da Soledade de Frei Francisco de Santiago, 1762.

No inicio do século XVII, (1610) é construída a torre, conforme podemos ler numa inscrição  existente no patamar da escadaria da torre.

No século XVIII, Manuel Robalo Pignatelli, governador da Praça da Moreleja, que morreu em 1726, dotou um altar privativo (capela) dedicado a Santa Luzia. Este altar acabou por transitar para os condes de Proença a Velha e Pina Ferraz (séc. XIX), que também acabaram por substituir a estrutura existente na capela.

Referências Bibliográficas:

COSTA, P. António Carvalho da – Corografia Portugueza… 2.ª ed. Braga: Typographia de Domingos Gonçalves Gouveia, 1868, tomo II;

LANDEIRO, José Manuel – O arciprestado de Penamacor. Vila Nova de Famalicão: s.n., 1940;

LANDEIRO, Carlota Maria Gonçalves Borges – A vila de Penamacor no primeiro quartel do século XVIII. Lisboa: Centro de Estudos Demográficos, 1965.

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=9337

Referências Documentais:

BN, COD. 413 -Titulo das comendas dos Mestrados das ordens de Christo e d ́auis que ha neste b[is]pado da guarda com aualiaçam das Remdas de cada hu[m]a delas dos Annos de 1563 e de 1564

ANTT, Memórias paroquiais, vol. 28, nº 127b, p. 929 a 949