Igreja de São Lourenço

NOTA ARTÍSTICA

O edifício oitocentista da Soalheira, é composto por uma nave, capela-mor e sacristia. Num computo geral, o modelo de desenho aplicado na construção desta igreja é similar ao risco de outras igrejas desta região.

A sua fachada principal, desprovida de ornamentação, destaca-se a torre com o seu relógio, enquanto a frontaria somente é ritmada por um portal rectilíneo encimado por uma janela que se abre para o coro alto. A iluminação do interior também é realizada pelas fenestrações dos alçados lateraias.

O interior do edifício, sem grande valor artístico, é provido de coro-alto em madeira, púlpitos que se abrem sobre a nave, quer do lado da Epístola quer do lado do Evangelho. Ainda no corpo da igreja erguem-se dois altares colaterais com os seus retábulos (Nossa Senhora da Conceição do lado do Evangelho e do lado da Epístola dedicado ao Sagrado Coração de Jesus) de feição oitocentistas onde se destaca gosto clássico e o predomínio dos elementos arquitetónicos.

Seguindo o mesmo figurino é o retábulo da capela-mor. Composto por um corpo tripartido, onde se destaca o nicho com respetiva tribuna e a ladear este espaço central, delimitadas por intercolúnios dispõem-se, sobre mísulas, a imaginária de São Lourenço e Roque (escultura de vulto do século XIX).

Data: XIX

Autor: S/N

NOTA HISTÓRICA

Possivelmente, o primeiro dado documental onde se regista o nome da localidade da Soalheira data de 1283, refere-se a venda de uma propriedade no Louriçal e teve como testemunha do negócio um tal Domingos Eanes, morador da Soalheira.

Do século XIII é ainda a informação de que a Soalheira, com a igreja de São Sebastião, era anexa da localidade da Lordosa, primeiramente por intermédio da Ordem do Templo e depois através da Comenda Ordem de Cristo da Lardosa. A longevidade desta relação é inclusivamente relatada na Memória Paroquial, quando o pároco refere que a igreja era anexa a igreja da Lardosa por posse que excede a memória dos viventes.  

No início do século XVI, conhecemos como se configurava a igreja da Soalheira. Era um espaço composto não mais que uma nave e uma capela-mor, todo obra de pedra e barro, com madeiramento na cobertura e telha vã. Junto da entrada do pequeno edifício tinha um campanário de pedra cõ seu arcvo çerrado e nelle huua bõoa campãa pequena.

No corpo da igreja erguiam-se dois altares, com os seus retábulos, tendo um deles dedicação a São Sebastião e o outro a Nossa Senhora. Nesses espaços haviam imaginária de vulto, no altar de Nossa Senhora existia uma imagem de Santa Ana de São Roque. Já no altar dedicado a São Sebastião duas imagens de vulto: de Santo António e São Lourenço. Todas as imagens de vulto são, no entender do visitador, de boa qualidade.

O arco triunfal, todo ele de pedraria, tem sobre um conjunto de imagens de vulto de boa qualidade, com a representação de Cristo Crucificado, a figura da Virgem e São João.

Já a capela-mor, com cobertura de madeira e telha vã, paredes de barro e pedra, muito bem cafeladas por dentro e por fora. O espaço, na opinião de visitador está em ótimas condições e com a indicação que terá tido obras renitentemente, visto que se encontra todo novo. Tem um altar em pedra e barro, onde se encontrava uma imagem de vulto dedicada ao orago (São Sebastião) e que tinha sido repintada. No retábulo, narrava-se pictoricamente a hagiografia de São Sebastião.

No entender do visitador, a igreja apresentava-se em ótimas condições, referindo mesmo que feita de novo e provida igualmente do necessário segundo há qualidade dos ditos moradores (…).

Em 1548, o comendador André Soares tinha falecido e deixava vaga a Comenda de Bemposta e da Lardosa, sendo estas comendas avaliadas em, 1559, no montante de 111.880 reiais

No título das igrejas e comendas (1563-1564) é referido que a igreja de São Martinho do lugar da Lardosa e suas anexas S. Lçº. da soalheira E Sancta mª da bemposta comeda da ordem de xpo, neste tempo não tinha comendador por estar vaga. Situação que se mantém até 1565.

Quinze anos depois a comenda, tida como uma das antigas, é dada D. D. João Coutinho; em 1587 o comendador D. Jorge Baroche; em 1594 a comenda é dada a D. Aleixo de Menezes e D. Luís de Almeida, em 1598, passa a ser comendador da comenda Lardosa. Todos os comendadores tinham as suas obrigações perante a comenda e as suas igrejas, mesmo aquelas que eram anexas à cabeça de comenda. Aos comendadores era obrigado à manutenção da ousia.

As Memórias Paroquiais revelam que a greja tem quatro altares, o altar mor com  tribuna e com imagem do orago da parte da direita e da parte esquerda Sam Domingos cada hum em seu nicho e no meio o sacrário tem dous altares colaterais  em hum esta  nossa senhora do Rozario e no outro  o menino Deos tem mais huma capella particular a onde está também o menino Deos, não tem nave alguma (…).

A atual construção, ocupou o local onde anteriormente existia a primitiva construção, contudo dessa arquitetura nada sobrou.

Em 1796 (29 de outubro), em carta remetida para a Rainha D. Maria, é referido o mau estado em que se encontrava a igreja de São Sebastião e a necessidade urgente de obras de modo a dar dignidade e segurança ao espaço. Disso mesmo dá conta a visita realizada pelo promotor do bispado de Castelo Branco e visitador ordinário das igrejas, refere que é com grande mágoa e escândalo um templo incapaz de nele se conservar o Santíssimo sacramento e nele se celebrarem as solenidades (….). E mais diz, revelando o grau de ruína observei finalmente a igreja ameaçando a morte a muitos fieis por se achar arruinada totalmente e apenas permitindo alguns dias de dilação por se achar especada com inumeráveis traves (….). O estado de degradação, segundo opinião do visitador, deve-se há falta de zelo e piedade do povo.

A descrição anterior leva a que no mês de novembro desse mesmo ano, o provedor da comarca procede-se a diligencias para reconstruir o edifício, dotando de melhores e maiores condições, visto o templo primitivo ser pequeno e sem qualidade para acolher um número elevado de fiéis que existem na freguesia. Nesse seguimento, conforme transcreveu Candeias da Silva, são elaborados apontamentos de “Obras de Pedraria da igreja matriz da Soalheira”, onde participaram na sua elaboração Luís José Garnel, mestre pedreiro e António Vaz Louro, carpinteiro. O auto descreve o seguinte:

Será esta obra com todas as medidas e proporções que se virem no risco e suposto falte o alçado interior, este leva o seu previsto no risco de pontinhos que se veem no frontispício e só resta alem das advertências que vão na planta baixa o dizer-se que:

A cimalha interior será assente sobre um friso de palmo de largura e ela terá dois palmos de altura e outros tantos de aboamento;

A pia baptismal será em forma de concha redonda com seu sumidouro para as águas, tendo o vazo de diâmetro três palmos e de altura quatro e meio compreendido o seu pé;  

O soco tanto exterior como interior será lavrado e escurado assim como a mais cantaria;

Os arcos pera os altares colaterais serão toscos e a sua volta redonda;

As janelas ou fresta, tanto dos lados como a do frontispício serão aplicadas por dentro e terão um rasgo de meio palmo porem as grossuras da parede ficarão de alvenaria para serem caiadas;

As vazas dos púlpitos serão em forma piramidal inversa com as molduras que mais bem engraçadas parecerem ou delas se dará o desenho;

A torre não passa por ora da altura da igreja ou quando muito chegará á altura do pavimento das sineiras ou ventanas, levando a sua escada de caracol da entrada do coro para cima;

A formar-se esta igreja na mesma situação em que está a velha, escusa arco cruzeiro, por ficar servindo o da capela-mor antiga porém, a mudar-se com a frontaria ao Sul, o que na verdade deve ser, se dará risco par o dito arco e escadaria que deve anteceder ao átrio da mesma igreja, e esta obra se ajustará de novo;

Toda a pedraria desta obra. tanto de alvenaria como cantaria, será cortada ande quiserem os moradores do povo. pois que eles se obrigam ao carreto, e tudo o mais que for preciso fica por conta do arrematante:

Adverte-se mais que parecendo próprio aos mesmos moradores que haja dois confessionários metidos na parede, o arrematante da obra os fará onde se assentar que eles devem ir;

 Tudo que se presumir necessário ao desempenho desta obra em asseio e segurança, além do que aqui vai declarado e advertido na planta baixa, se devera entender como que se declarado fosse;

Fará mais o arrematante duas colunas para segurança do coro, que terão pedestais, vazas e capiteis conforme a ordem dórica a altura a que é necessária assentes nos terços da largura da planta baixa.

Este auto de obras foi, entretanto, colocado em pregão, pelo valor de um conto e quinhentos mil reis, tendo sido arrematado, segundo Candeias da Silva, por Luís José Garnel, mestre pedreiro que era natural de Vale Prazeres.

Contudo, as obras não avançaram de imediato, argumentando-se o problema da epidemia que assolava o território.  Só no ano de 1802 se começa a reedificação da igreja da Soalheira, obras que se estenderam até 1828. Foram 26 anos de construção, onde o risco concretizado pouco tem haver com o auto das Obras de Pedraria da igreja matriz da Soalheira e o seu construtor não foi Luís José Garnel.

A inauguração ocorre no início do ano de 1829, mas as pequenas campanhas de obras decorreram ao longo dos anos seguintes. Em 1837, é pintado o altar mor. No ano seguinte, 1838, ocorre a execução de um retábulo colaterais, dois anos depois (1840) é concretizado o outro altar colateral. Em 1844, o coro-alto é arrematado pelo valor de 169.450 reias.

Em 1856 é efetuado o prolongamento do campanário, a esse respeito diz-nos Augusto Ruivo, que o campanário era de pequena envergadura não podiam os sinos dominar a freguesia, de forma a contrariar este propósito, reformulou-se a torre, dando-lhe altura e colocou-se um relógio.

Referências Bibliográficas:

CORREIA, Ana Maria Oliveira, Bemposta : uma aldeia esquecida no tempo…. [S.l. : s.n.], 2001.

GONÇALVES, Iria (coord.), Tombos da Ordem de Cristo, Comendas da Beira Interior Sul (1505), vol. V, Lisboa: Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2009.

HORMIGO, José, Visitações da Ordem de Cristo em 1505 e 1537. Amadora: 1981

HORMIGO, José, Arte e Artistas na Beira Baixa. s.l.: 1998.

SILVA, Joaquim Candeias, O Concelho do Fundão através das Memórias Paroquiais de 1758. Fundão: Câmara Municipal do Fundão, 1993.

SILVA, Joaquim Candeias da, Concelho do Fundão – História e Arte. Fundão: Câmara Municipal do Fundão, 2002, vol. I

VICENTE, Maria da Graça Antunes Silvestre, Entre Zêzere e Tejo Propriedade e Povoamento (séculos XII-XIV). Volume I, 292p., tese de doutoramento em História
Medieval, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2013.

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=8957

Referências Documentais:

ANTT, Ordem de Avis. Convento de S. Bento de Avis, mç. 2, doc. n.º 221.

ANTT, Mesa de Consciência e Ordens, OC/CT, liv. 19, fl 45

ANTT, Mesa de Consciência e Ordens, OC/CT, liv. 240

ANTT, Mesa de Consciência e Ordens, OC/CT 25 fl 5

ANTT, Desembargo do Paço, mç 207, n 13386

ANTT, Memórias paroquiais, vol. 35, nº 182, p. 1359 a 1362

BN, COD. 413 – Titulo das comendas dos Mestrados das ordens de Christo e d ́auis que ha neste b[is]pado da guarda com aualiaçam das Remdas de cada hu[m]a delas dos Annos de 1563 e de 1564.