Igreja de São Miguel

NOTA ARTISTICA

Planta retangular composta por nave, capela-mor, anexos adossados ao lado esquerdo, e torre sineira, de volumes articulados e escalonados. O interior somente é digno de registo o coro-alto e púlpito, quanto ao restante denuncia a plena intervenção do século XX.

Data/séc.: XVI/1635/XX

Autor: s/n

NOTA HISTÓRICA

O atual edifício é fruto de uma ampla obra reconstrução (1935) que acabou por desvirtuar o que restava da sua ancestralidade.

A escassez documental não permite conhecer ao certo a data da sua fundação. Na realidade, a localidade do Ninho do Açor surge na documentação no século XIV, como estando na alçada da milícia de Avis, embora sem menção à sua igreja.

Esse facto surge, no livro, Titulo das comendas dos Mestrados das ordens de Christo e d auis ue ha neste b[is]pado da guarda com aualiaçam das Remdas de cada hu[m]a delas dos Annos de 1563 e de 1564 , é referido que o lugar do Ninho do Açor tem a uma igreja, com dedicação a Santa Maria, e que se encontra anexa à igreja de São Vicente da Beira, comenda da Ordem de Cristo e Ordem de Avis, descrevemos seguidamente o título :

“I da jgrª de san Vicente da villa de S. Vcente da beira e suas anexas S. Maria das Tinalhas, S. Lourenço da Povoa. S. Sebastyam do soverall, Sam bento dos Lourjcais. S.bertolameu do Frejxeall. S. mª doninho do açor comenda da Ordem de xpo e davis

Igreia de sam vicemte da villa de sam viçente da beira com suas Anexas a Cima decraradas há duas Comendas huam da ordem de xpo outra da ordem davis he comendador da ordem de xpo Geronimo Cortereall e he Cimendador da Ordem davis Dom Francisquo da Costa levão os ditos comendadores dous terços dos dízimos igoalmente com os próprios sepremisias e o bispo leva huum  tterço – (…) ao comendador da ordem de xpo Oterço que leva dos dízimos com metade das promisias e próprios, gado, lam, linho vinho e outras meunças em cada hum anno tiradas as despesas ordinárias necessárias comforme ao regimento e asy o salario do vigário cemto corenta e novemil quinhentos e noventa rs

rende outro sy ao comendador da ordem davis o terço dos dízimos com metade das promisias próprios guado lam linho vinho e outras meunças duzentos e tres mil rs”

Desconhecemos se esta igreja de Santa Maria que a documentação do século XVI refere, foi a primitiva e que esteve na origem da atual igreja dedicada a São Miguel. Deste auto de comendas (1563-1564) ficamos a saber que o comendador da Ordem de Cristo é  Jerónimo Corte-Real – fidalgo da Casa Real, homem ligado ao círculo erudito do humanismo – e o comendador da Ordem de Avis é D. Francisco da Costa (1533-1591) – filho de D. Duarte da Costa serviu na Índia onde foi Capitão de Malaca. Foi Comendador de São Vicente da Beira na Ordem de Avis e foi designado Armeiro mor do Rei D. Sebastião).

Contudo, em 1635, conforme indica a data cronografada na fachada principal, a igreja foi alvo de uma requalificação e possivelmente, esta intervenção levou que o edifício a designar-se como igreja de São Miguel.

Descrito, nas memórias paroquiais (1758) desta forma: (…) Fica esta esta terra na província da beira, pertence ao bispado da cidade da comarca de Castelo Branco. E termo da vila de São Vicente da de El Rei. Tem quarenta e três vizinhos, e pessoas maiores cento e dezasseis. Está situada em um sítio que mais tem de montes que de vale, ou campina. Descobre-se dela a vila de Sarzedas, distante três léguas, o lugar de Sobral, distância de meia légua. A paróquia está fora do lugar, ao cimo dele. Não tem lugares anexos à freguesia. O orago é S. Miguel Arcanjo, que está no altar mor, e a Senhora do Socorro. Tem mais a igreja dois altares colaterais, um de Nossa Senhora do Rosário, e outro com o Santo Cristo, com a invocação das Almas. Existe também nesta paróquia uma irmandade das Almas e Santissimo Sacramento. O pároco é cura, que apresenta o vigário da vila de São Vicente da Beira, tem de renda vinte mil reis, vinte e dois alqueires e meio de trigo, cinco almudes de vinho. Paga esta côngrua o comendador. Tem, no fundo do lugar, a ermida de Santo António, que pertence aos moradores. Os frutos que os moradores recolhem, em mais abundância, são centeio, feijões, e pouco azeite. Tem um juiz pedâneo, que confirma a câmara da vila de São Vicente da Beira. As justiças da dita vila é sujeita esta terra. Não tem correio, e serve-se do da vila de Castelo Branco, que dista duas léguas e meia. Dista da cidade capital do Bispado doze léguas, de Lisboa trinta e nove, ou quarenta. Nos limites deste lugar corre um rio a que se chama a Ribeirinha, que tem o seu nascimento na serra da vila de São Vicente, por cima da capela de Nossa Senhora da Orada, seca no Estio, mas não onde nasce. Corre do Norte ao Sul, cria alguns peixes, a que chamam bordalos, em pouca abundância, pescaria livre, e cultivam-se as suas margens. Mete-se na ribeira Ocreza, nos limites do lugar de Caféde, termo da vila de Castelo Branco. Enquanto passa pelos limites deste lugar tem somente dois moinhos, e o das águas é livre. Tem quatro ou cinco léguas esta ribera, passa a vila 40 Vicente, pelos limites do Sobral, e deste passa aos limites deste lugar e os lugares de Tinalhas, Póvoa de Rio de Moinhos e Caféde, aonde fenece. (…)” (Ninho de Açor, Memórias paroquiais, 1758).

No final do século XIX é realizado o arranjo do adro com a construção da escadaria de acesso à igreja. Devido ao estado de degradação, o edifício foi sujeito, em 1935, a obras de profunda remodelação.

Referências Bibliográficas:

AZEVEDO, Leonel, Colecção de documentos históricos de Ninho do Açor. Ninho do Açor : Junta de Freguesia de Ninho do Açor, 2003

LEME, Margarida, Costas com Dom: Família e Arquivo (Séculos XV-XVII). Tese de Doutoramento em História/Arquivística Histórica, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2018

SANTOS, Domingos Maurício Gomes dos, Cancioneiro chamado de D. Maria Henriques. Lisboa: Agência Geral do Ultramar, 1956.

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=12846

Referências Documentais:

ANTT, Ninho de Açor, Memórias paroquiais, vol. 25, nº (N) 23

ANTT, Mesa de Consciência e Ordens Tombo das Comendas, 85 (1716)

ANTT, Mesa da Consciência e Ordens, Ordem de Avis, Chancelaria antiga, lv. 1.

AN/TT,  Ordem de Avis. Convento de S. Bento de Avis, mç. 5, doc. n.º 592.

BNP, Reservados, Cod. 413, Titulo das comendas dos Mestrados das ordens de Christo e d auis ue ha neste b[is]pado da guarda com aualiaçam das Remdas de cada hu[m]a delas dos Annos de 1563 e de 1564