Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção

NOTA ARTÍSTICA

Fachada principal de pano único delimitada por pilastras, ostenta a data de 1831, que representa a ampliação do corpo da igreja. O seu portal, colocado no eixo central do alçado, detém frontão curvo interrompido e encimado por janela. Os alçados laterais evidenciam várias portas e janelas, alguns dos quais com moldura semelhante à da janela da fachada principal, rematada.

Na fachada da sacristia, sobre a porta, encontra-se cronografada a data de 1918. Nesse data foram realizadas obras de ampliação da capela-mor e sacristia. Facto é visível pela forma como está organizada a cobertura de caixões (com pinturas dedicadas ao ciclo mariano) que cobre a capela-mor.

A igreja é de nave única com batistério, capelas laterais, púlpitos e coro-alto. A torre sineira que ladeia o edifício, está parcialmente integrada nele, sendo visível pelo interior, no nível inferior, a abertura de um arcossólio com o perfil de arco apontado. Este o único elemento que nos resta do edifício medieval.

Existem ainda quatro retábulos, do século XVIII, sendo que os dois que se encontram inseridos em capelas, são mais tardios que os que ladeia o arco triunfal.

A capela-mor preserva parcialmente um teto em caixotões com cenas da Vida da Virgem (séc. XVII/XVIII), denunciando uma pintura de contornos regionalistas,  atestam a bitola de menorização que, inexoravelmente, sobressaem numa região de fronteira onde a clientela que domina, sem recursos e sem gosto, alinha por uma linguagem artística com predominante acento decorativo e de teor didascálico.

Nos seus alçados laterais abrem-se duas tribunas, definidas por arco em asas de cesto e pilastras e duas capelas, que exibem vitrais de S. Vicente e Nossa Senhora. O retábulo-mor setecentista, em estilo nacional, exibe um escudo com as armas reais.

O edifício, conserva atrás da capela-mor um espaço museológico, onde sobressai, do remanesceste património, desta e a de outras igrejas de São Vicente, um conjunto peças de escultóricas de vulto, quer em pedra e quer em madeira, de diferentes épocas. Nesta capela-mor, revela-se a exposição solene do Santíssimo Sacramento, ação de grande relevância litúrgica, era promovida nas igrejas matrizes ou paroquiais pelas confrarias do Santíssimo Sacramento ou do Senhor.

Do século XIV é a Nossa Senhora da Graça ou das Graças. Esta escultura, segundo a tradição, foi oferecida por D. Nuno Álvares Pereira, é realizada em pedra calcária e encontra-se bastante repintada, mas mesmo assim revela uma boa qualidade no domínio das formas.

Uma das peças que mais se destaca é a porta de alabastro, do século XV, que terá pertencido a um sacrário da capela de Nossa Senhora da Orada. É um alabastro policromado, com a representação do tema Arma Christi, onde se visualiza Cristo sentado como Ecce Homo e rodeado pelos dos instrumentos da paixão, Na parte superior da peça encontra-se representado da cabeça de São João Baptista. A conjugação destes elementos iconográficos são raros, não se conhece em Portugal tema similar. Por outro lado, esta peça não tem origem no território nacional, mas sim, tudo leva a crer, devido aos paralelismos formal e iconográficos, que se trata de uma peça com origem em Inglaterra, mais propriamente na escola de Nottingham, onde se encontram exemplares similares. A chegada desta peça a São Vicente (N. Sra. Senhora da Orada) pode ser resultado de uma doação realizada pela importante família dos Costas (de Alpedrinha), que entre o século XV e XVI, foram cavaleiros e comendadores da Ordem de Cristo e também de Avis.

Ainda dentro deste contexto, identifica-se uma pequena escultura em madeira do Menino Jesus, uma peça, que pelas suas características pode estar associada à oficina de Malines.

Já sob o gosto do renascimento, encontramos um Santo André. Policromada e em pedra de Ançã, a escultura apesar das múltiplas mutilações, revela bem a sua notória qualidade, sobretudo no tratamento das formas anatómicas, no trato do panejamento, mas, principalmente, na modelação da expressividade que se encontra no rosto da figura, revelando toda a qualidade do seu imaginário, que, pelas formas é certamente alguém da importante oficina escultórica de Coimbra.

Com a mesma intensidade e qualidade é a escultura de São Pedro. Figura em pedra calcária policromada, mostra a típica representação iconográfica de São Pedro como Papa. Sentado na cátedra, de tiara papal, com pluvial vestido, segura com uma das mãos as chaves (guardião das chaves do céu) e na outra o livro. É uma escultura, que pelas suas caraterísticas, sobretudo na forma de modelação do vestuário e na expressão humana, tem afinidade com a escultura coimbrã de meados do século XVI.

No campo da pintura destaca-se repintadíssima tábua de um desmembrado retábulo, com representação de Nossa Senhora da Piedade. Datada de fim do XVI, de autor anónimo, a pintura apresenta um forte sentido de aproximação ao trabalho executado pelos discípulos de Luís de Morales, el Divino, o que também nos leva, mais uma vez, a suspeitar de eventuais encomendas a artistas da Extremadura espanhola.

Data: XIII-XIV-XV-XIX-XX

Autor: n/s

NOTA HISTÓRICA

Segundo reza a tradição, D. Afonso Henriques, após a vitória na batalha de Oles, outorga privilégios à localidade de São Vicente da Beira, funda uma igreja e faz doação das relíquias de São Vicente. Assim, desde o século XII, o edifício foi entregue ao Mosteiro de S. Jorge de Coimbra e à Ordem de Avis. Posteriormente, no decorrer do século XV, à presença Ordem de Avis junta-se a Ordem de Cristo.

Esse mesmo aspeto surge, de forma bastante explicita na na documentação de 1563-1564,  sob o titulo Tº da igrª de san Vicente da villa de S. Vycente da beira onde é dito que tem como anexas as seguintes igrejas S. maria das Tinalhas. S. Lourenço da povoa. S.Sebastyam do souverall sam bento dos Lourjcais. s. bertolameu do frejxeall. S. mª do ninho do açor. É uma comenda da ordem de Xpo e Avis, tendo  por comendadores: da Ordem de Cristo Geronimo Corte Real e da Ordem de Avis, Francisquo da Costa.

Já no século XVII, continua a existir o mesmo principio de repartição, onde se descreve, entre diversos aspecto, o edifico e a forma de  administração, veja-se o documento do tombo da comenda  (nº85):

Duas comendaz a saber a de sam bento de Aviz e a da Ordem de christo são obrigadas a fabricar ornamentar a capella mor de todo o necessário e por determinaçam muito antega desde o tempo do santissimo pagam de fabrica a dita comenda dez (rs)…. para a dita capella mor quinze mil reiz em cada hum anno e a comenda de (…) dez mil reiz também em cada hum anno tudo pago em dia de nossa senhora da asumpção digo de Agosto….

(….) Dom José da Costa e Sousa comendador Igreja Matriz de São Vicente (da Beira).

A dita igreja está situada no meio da vila junta à praça por quanto o adro dele confina com a mesma praça e tem a porta principal para poente da qual igreja da capela mor se divide em um arco de pedra de cantaria muito bem feito e tem de altura cinco varas e terça que são vinte e seis palmos e meio; e de comprimento 5 varas e duas terças que são 28 palmos e meio de largura 25 palmos que são varas, digo, que são 5 varas; tem mais altar-mor duas cardencias uma em cada lado e um retábulo muito velho e antigo cujas as pinturas estão sumidas e as madeiras por dentro corruptas e ouro todo desmaiado e no meio do qual estava a imagem de nossa senhora de assunção da qual é orago e padroeira da dita igreja a qual esta encarnada e estufada de ouro e a parte da epistola está imagem de são Loureço também estufada e encarnada de ouro e para a parte do evangelho a imagem de São Vicente envolto, digo, em vulto e tem mais no meio um sacrário velho e antigo cuja a fabrica pertença aos fregueses e mordomos da confraria do santíssimo e tem mais 4 castiçais de prata de 2 palmos e meio de altura cada hum e dois de metal amarelo mais a dita capela um fresta para a parte do sul com duas vidraça e rede de arame e tem para a parte do norte introduzido um almário com suas portas e caixilho de madeira pintado dentro do qual está um cofre também de madeira forrado de cetim de vermelho com as relíquias dos mártires Zenão e Justino huma de hum osso de um braço e outra de huma mezilha  e outra do espinhaço verdadeiras e trazidas de Roma pelo padre Simão Rodrigues prior que foi da igreja de São Pedro de Penamacor no ano de 1547 em 5 de setembro do dito ano por indulto do santissimo padre Paulo III presidente que então era na igreja de Cristo e autenticadas nesta igreja desta vila pelo muy ilustrissimo senhor D. João de Portugal, Bispo da Guarda, …. Da mesma autenticação que está no dito caixilho onde se tirou esta clareza e tem a capela de plano para o altar quatro degraus de pedra tem mais duas alampadas de metal amarelo das quais uma sustenta e leva de azeite os mordomos da confraria do santíssimo e a outra leva e sustenta o tesoureiro da igreja para o que lhe pagam em cada um ano os comendadores da comenda de São Bento de Avis e de Cristo três alqueires e três quartas de azeite cada um deles e estão ambas continuamente acesas assim e dia como de noite e junto a dita capela-mor está para a parte do norte uma sacristia a qual a dita pela parte de dentro tem de comprimento cinco varas e meio que são 27 palmos e meio e de altura 4 varas e duas terças que são vinte três palmos meio e de largura treze palmos e meio que são duas varas e meia a qual esta contigua a rua direita que vai do convento das freiras para a ermida de santo antonio e tem para a parte do norte um porta que sai para a dita rua e um festa que lhe dá luz para a parte do nascente tem mais um caixão grande com 4 gavetas para recolha dos ornamentos por cima do qual está o caixilho d emadeira novo pintado de azul com seus lavores e no meio dele a imagem de um cristo cruxificado e para a parte do sul está um almário pequeno com 4 gavetas em que estão recolhidos os santos óleos e algumas coisas da serventia da igreja abaixo do qual almário estão encostados à parede dois bancos de espaldas com três caixilho cada um para recolher as sobrepelizes, toalhas e outras cousas e para a parte do poente está metido na parede outro almário forrado de madeira repartido em que se recolhe os cálices, véus e bolsas de corporaes.

Obrigações

Duas comendaz a saber a de sam bento de Aviz e a da Ordem de christo são obrigadas a fabricar ornamentar a capella mor de todo o necessário e por determinaçam muito antega desde o tempo do santissimo  pagam de fabrica a dita comenda dez reis para a dita capella mor quinze mil reiz em cada hum anno e a comenda de… dez mil reiz também em cada hum anno tudo pago em dia de nossa senhora da asumpção digo de Agosto… para os ornamentos em … couzas … para adminstraçãm dos sacramentos e tudo excede e memoria dos homens

Corpo da igreja he do povo o comendador da ordem apresentação um cura [apresentado pelo prior de Sam Jorge]o que consta pella vizita e tombo que se fez da dita comenda de Aviz nesta villa e seu termo por […] de Sousa e a prior [………..[ por procurazam do senhor infante dom Jorge da gloriosa memoria e mestre de aviz e duque de coimbra filho de Senhor Rey D. João Segundo no anno de mil e quinhentos e dezouto  anos (1518) e por outro tombo que se fez da mesma sorte por procuração do mesmo senhor infante por frei nuno da gama prior de Juromenha no anno de 1539 […]

Ornamentos presentes na sacristia

Corpo da igreja medido pela parte de dentro rem noventa e três palmos e meyo de comprimento e de altura vinte e seis palmos em largura trinta e oito palmos

 

Referências Bibliográficas

BRITO, Maria Inácia Palma de, São Vicente da Beira. São Vicente da Beira: Centro de Estudo e Defesa do Património Cultural e Natural da Gardunha, 2001

BRITO, Maria Inácia Palma de; CONCEIÇÃO, António José da, Senhora da Orada: São Vicente da Beira. São Vicente da Beira, s/d, 2019 

PRATA, José Teodoro, O Concelho de S. Vicente da Beira nos finais do Antigo Regime. Castelo Branco : Câmara Municipal, 2011.

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=801

 

Referências Documentais:

ANTT, Mesa de Consciência e Ordens, Tombo da Comenda 85 (1716)