Igreja de São Martinho

NOTA ARTÍSTICA

Espaço religioso de planta retangular, com nave única e capela-mor, dotado de retábulos, púlpitos e coro-alto do século XVIII. A igreja quinhentista era de três naves, exibia um alpendre lateral e pinturas murais.

No exterior destaca-se a fachada principal marcada pelos elementos em cantaria, nomeadamente as molduras dos vãos:  porta principal, janelão sobre esta e vãos que ladeiam o portal. Todos os vãos apresentam dimensões generosas e são encimados por elementos decorativos em pedra baseados em elementos volutados.

O retábulo-mor em talha dourada e policromada exibe no topo, ao centro, a cruz da Ordem de Cristo inserida numa cartela; de estética barroca, apresenta inúmeros detalhes decorativos como puttis, e outras figuras humanas, cestos com flores, pássaros e baldaquinos.

A insígnia da ordem surge também inscrita no intradorso da pedra de fecho do arco triunfal.  Este arco é em cantaria, assim como as estruturas de cariz arquitetónico onde se inserem os retábulos laterais da nave; são definidas por pilastras que enquadram um arco a pleno centro e sustentam um entablamento rematado por frontão triangular interrompido por uma cruz sobre pedestal

A cobertura é em teto de caixotões; na capela-mor os caixotões apresentam pintura decorativa contemporânea, onde se destaca o uso de símbolos. Contemporâneos são igualmente os revestimentos azulejares nos alçados da igreja.

Data: XV/XVIII

Autor: n/s

NOTA HISTÓRICA

Os primeiros dados documentais referentes ao lugar da Lardosa, remontam ao século XIII. Neste período, vão surgir novos aglomerados populacionais, ajudando a organizar e a povoar um território, sobretudo um território complexo com é o de fronteira, caraterizado pela sua baixa densidade populacional e fustigada pelas investigas militares. É sob estes contornos que encontramos a localidade da Lardosa. Em 1223, é outorgado carta foralenga, seguindo de perto o modelo de foral de Castelo Novo. A outorga tem como protagonistas, Petrus Petri e sua mulher Ermesenda Petri e por Raimundo Petri e sua mulher Dona Joana, estes particulares, devem ser detentores de condição política ou social de relevo, contudo existe um desconhecimento em torno desta temática.

Em 1264, após a morte Raimundo Peres D. Joana e respetivos herdeiros, acabam por fazer doação, a título hereditário, da vila da Lardosa, conjuntamente com outros locais desta região, obtendo em troca a proteção que a milícia dos templária oferecia. Esta situação, assim como outras do mesmo género, reforçava o poderio do Templo na região.

Em 1321, a igreja de São Martinho surge arrolada no Catálogo de todas as igrejas, comendas e mosteiros, referindo-se que pagava 350 libras de dízimo. Quantia considerável atendendo ao aglomerado populacional da comenda da Lardosa. Neste período, em sequência do processo de extinção, a Lardosa transita da Ordem do Templo para nova milícia instituída por D. Dinis.

Em 1475, frei Diogo de Sousa é o comendador da comenda da Lardosa, acumulando esta comenda com a comenda de Segura e são precisamente as rendas destas comendas que são alvo de um esquema fraudulento. O episódio reporta-se ao perdão efetuado por D. Afonso V a Abraão Navarro, então morador em Castelo Branco, da acusação de transpor as rendas das comendas pertencentes de Fr. Diogo de Sousa para o reino de Castela.

A comenda da Lardosa, assumindo-se como sua cabeça, tem a Solheira e a sua igreja como anexas. Inicialmente, os moradores do lugar da Solheira eram fregueses da igreja de S. Martinho da Lardosa, contribuindo para esta igreja (no pagamento do capelão, reparação da igreja e ornamentos, conforme se relata na visitação de 1537) facto que deixa de acontecer quando é construída a igreja de S. Lourenço.

Em setembro de 1537, cabe a frei António de Lisboa, reformador da Ordem, realizar a visitação a este espaço, onde tinha por comendador, António Sousa. Pelas suas palavras ficamos é possível saber que a igreja de São Martinho, encontra-se bem ornamentada, com peças de prata (huua cruz de prata de sete marcos e estaa a fazer na Covjlhã), diversas alfaias litúrgicas, livros, missais e diversa paramentaria.

A igreja tinha na fachada principal, com portal e hum arrezoado campanário, era precedido de um alpendre, mas a sua constituição não era do apreço do visitador, referindo mesmo que era mal telhado e mal corregedor que nõ parece jgreja. Estas mesmas palavras são aplicadas ao alpendre da fachada voltada a nascente, onde também se abria uma porta.

Constituída por três naves, a igreja, além da habitual pia batismal, também é dispõe de altares junto das paredes que ladeiam o arco triunfal que era quasi toda pintada, referindo o visitador que são imagens antigas. Os altares dispõem-se a ladear a entrada da ousia, tendo inúmeras imagens de vulto e tam amtiguos e velhos e gastados que tem mais figuras de pao que de santos. A apreciação estética realizada pelo visitador revela bem o estado bem que se encontravam as imagens.

Estas esculturas estavam sobre os dois altares. No altar do lado da Epístola, o altar tem a dedicação a Nossa Senhora da Graça, ao Espírito Santo, a Santo António e São Brás. No lado contrário, a dedicação é a São Martinho e São Bartolomeu e a outros não conhecidos.

A capela-mor, he de comprido quatro varas e de largo três, tem um altar primçipall hüu arrezoado com o seu retábulo dourado que quando se abre fica em tres painees o do meyo ha de Sam Martnho e os dos cabos huu he de estorias dos Reis Magos e o outro de Sam Jeronymo (…). Este é espaço da responsabilidade do comendador.

Em 1563-1564, o livro dos títulos das comendas refere que a igreja de São Martinho do tem anexas a igreja de São Lourenço e Santa Maria da Bemposta. Nesta data he vigairo na matriz da lardoza adrião vaáz, mas como comendador não temos notícias, pois a comenda esta vazia.

Sabemos que, em 1559, o comendador anterior era André Soares, tenha sob a sua alçada a Comenda da Lardosa e Bemposta, avaliada num o total de 111.880 reais. Em 1565, após a sua morte, a comenda é valorizada, passando a ser avaliada em 150.000.   A comenda da Lardosa, tida como antiga, ou seja, é uma comenda criada antes do primeiro quartel do século XVI. No final desse século temos a informação de diversos comendadores: em 1580, o lugar era ocupado D. João Coutinho; sete anos depois, D. Jorge Baroche ocupa a comenda sendo esta das antigas por onde não deve meya nata. No final do século, são comendadores, em 1594, D. Aleixo de Menezes e em 1598, D. Luís de Almeia.

Todos eles eram obrigados a gerir a comenda e no caso concreto da igreja da Lardosa, o comendador é obrigado a fabrica da capella e ornamentos necessários e a dar pera as galhetas e pão pera as osteas.

Desconhecemos a cronologia da campanha de obras que este edifício sofreu, mas o atual edifício é fruto de uma intervenção do século XVIII.

Em 1758, a memória paroquial, realizada pelo pároco Manuel Carvalho, refere ser uma igreja de uma só nave (e já não as três naves do século XVI) , tem cinco altares, o maior, dois colaterais e duas capelas de cada lado sua nos ditos colaterais, Nossa Senhora do Rosário e São Bartolomeu. Diz a memória que numa das capelas está Santo Cristo e outra capela era privada e tinha dedicação a São Francisco.

Referências Bibliográficas:

ALMEIDA, Fortunado de, “Catálogo de todas as igrejas, comendas e mosteiros que havia nos reinos de Portugal e Algarves, pelos anos 1320 e 1321 com a lotação de cada uma delas. Ano de 1746”, História da Igreja em Portugal, vol. IV, Porto, Livraria Civilização, 1971, pp. 90 – 144

GONÇALVES, Iria (coord.), Tombos da Ordem de Cristo, Comendas da Beira Interior Sul (1505), vol. V, Lisboa: Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2009.

HORMIGO, José, Visitações da Ordem de Cristo em 1505 e 1537. Amadora: 1981

HORMIGO, José, Arte e Artistas na Beira Baixa. s.l.: 1998.

SILVA, Joaquim candeias da, O Concelho do Fundão – História e Arte, Fundão, 2002, p. 133

VICENTE, Maria da Graça Antunes Silvestre, Entre Zêzere e Tejo Propriedade e Povoamento (séculos XII-XIV). Volume I, 292p., tese de doutoramento em História
Medieval, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Lisboa, 2013

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=12821

Referências Documentais:

ANTT, Ordem de Cristo / Convento de Tomar, liv. 306

ANTT, Chancelaria de D. Afonso I, Livro 30

ANTT, Mesa de Consciência e Ordens, Ordem de Cristo / Convento de Tomar, liv. 19

ANTT, Mesa de Consciência e Ordens, Ordem de Cristo / Convento de Tomar, liv. 25

ANTT, Mesa de Consciência e Ordens, Ordem de Cristo / Convento de Tomar, 240

ANTT, Ordem de Cristo / Convento de Tomar, maço 13, doc. 1

ANTT, Memórias paroquiais, vol. 19, nº 60, p. 459 a 460

BN, COD. 413 -Título das comendas dos Mestrados das ordens de Christo e d ́auis que ha neste b[is]pado da guarda com aualiaçam das Remdas de cada hu[m]a delas dos Annos de 1563 e de 1564