Capela de Nossa Senhora da Piedade

NOTA ARTÍSTICA

Colocada num ponto altaneiro da cidade, tendo uma visão sobre o Castelo e a Devesa, a capela de Nossa Senhora da Piedade (outrora designada por São Gregório), é uma estrutura bastante simples, de nave única e capela-mor. Contudo alguns dos seus traços denunciam que a construção tem origens no século XVI. Contudo, este edifício terá sido alvo de alguma beneficiação em 1617 (data que se encontra conografada sobre o arco triunfal) e posteriormente sobre uma reabilitação alargada no século XVIII.

Contudo, no inteiro deste pequeno templo guarda-se um importante espólio azulejar de gosto joanino. Tendo a totalidade das paredes revestida de azulejos, este edifício destaca-se, sobretudo, porque em toda a região não se encontram elementos desta dimensão, nem desta qualidade.

O seu revestimento que ocupa a totalidade Epístola e Evangelho reparte-se por dois registos: no registo inferior, delimitados por arquiteturas fingidas, encontram-se episódios relativos à vida da Virgem ou aos seus Mistérios, destacando-se temas como a Adoração dos Magos, o Repouso quando da fuga para o Egipto,  a Adoração dos Pastores, a Visitação e a Coroação da Virgem. No registo superior, ao longo de todo o perímetro, encontra-se representado o apostolado nos seus respetivos nichos pintados e enquadrados por elementos arquitetónicos sob o efeito de trompe-l’œil. Sob a porta principal encontra-se representado uma Última Ceia.

Também sobre azulejo encontramos um letreiro que elucida a encomenda. Esta obra a azulejo e pavimento se fez com o dinheiro do doutor Francisco Rafeiro, encontrando-se a encomenda datada: 1739.    

Como é típico do gosto barroco, também a talha dourada marca presença neste espaço. O arco triunfal de acesso à capela-mor e o retábulo-mor ostentam um gosto sob a talha dourada de feição joanina. Anexa a capela-mor encontra-se o espaço destinado à sacristia, onde se tem acesso a a uma tribuna que se abre diretamente para a capela-mor.

séc. XVI/ 1617/1739

Autor: s/n

NOTA HISTÓRICA

A construção primitiva remonta, provavelmente, ao final do século XIV, sob a invocação São Gregório (a designação de Nossa Senhora da Piedade surge somente no século XVIII, segundo António Roxo, a mudança ocorre no ano 1753), conforme se pode ler no tombo da Ordem de Cristo A esse propósito podemos ler Tombo de 1505, os seguintes dados:

“no termo da dicta Villa tem ha hordem de Cristo has hermidas seguintes.

primeiramente. ha hermida de sancta maria de mercoles situada quasi no meyo de huua granja da hordem que se chama ha granja de mercoles e desta hermida leua has offertas ho vigairo da egreja sobredicta de santa maria:

outra hermida de sancto andree.

outra hermida que se chama de sam bartolomeu.

outra hermjda que se chama de sam gregorio

outra hermida que se chama de sam giãao

outra hermjda que se chama de sam martinho

outra hermjda que se chama de sam sebastiam

outra hermjda que se chama de sam lourenco

outra hermjda que se chama de sam pedro do salgueiro.

Destas ermjdas sobreditas leua has offertas ho vigairo da egreja de sam miguel saluo ha de sam pedro que he d ambalas egreias:

o corregimento das sobreditas egreias e asi das hermidas se faz nesta maneira a saber ha hordem correge has oussias das dictas egrejas de santa maria e sam miguel e has repaira de todo ho que lhe faz mester e põoe hi hos hornamentos e çera e ençensso e hos freegueses corregem hos corpos dellas e altares que nellas estam.

E todallas hermidas asi has oussias como hos corpos dellas correge ho conçelho. e has hornamentam segundo sua deuaçome asi estaa de costume posto que ha hordem leue has offertas como suso dicto he. e pella hordem deuem de seer postos hi hos hermjtãaes segundo que se achou per antijguas visitaçõoes.”

Como já foi referido, em 1617, o edifício terá sofrido alguma beneficiação. Ainda no século XVII, mais concretamente em 1678, encontra-se, no centro da capela, a tampa sepulcral de Gil Vaz Lobo (Gil Vaz Lobo, em 1669, pela mão do regente D. Pedro, foi nomeado governador das armas da província da Beira). Já no decorrer do século seguinte, a igreja sofre uma intervenção e data desse período a execução do património azulejar, fruto da encomendada de Francisco Rafeiro, em 1739. Também deste período deve datar a obra de talha dourada Joanina, quer a talha que se encontra a revestir o arco triunfal que o próprio retábulo.

Referências Bibliográficas:

ROXO, António, Monographia de Castello Branco, Elvas, 1891;

SALVADO, António, Elementos para um Inventário Artístico do Distrito de Castelo Branco, Castelo Branco, 1976;

SANTOS, Manuel Tavares dos, Monumentos de Castelo Branco – Capelas e Cruzeiros in Beira Baixa, Castelo Branco, 1953, nºs 817 e 827;

SANTOS, Manuel Tavares dos, Castelo Branco na História e na Arte, Castelo Branco, 1958;

SILVA, Joaquim Augusto Porfírio da, Memorial Chronologico e Descriptivo da Cidade de Castelo Branco, Lisboa, 1853.

SILVEIRA, António, AZEVEDO, Leonel e D’OLIVEIRA, Pedro Quintela, O Programa POLIS em Castelo Branco – álbum histórico, Castelo Branco, 2003.

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=2504

Referências Documentais: