Igreja de Santa Maria do Castelo

NOTA ARTÍSTICA

Constituído por uma só nave e capela-mor, o edifício encontra-se adossado, do norte, à antiga estrutura de defensiva, onde existiam dois portais portais de acesso ao templo e que ainda se observam parcialmente, mesmo após o aterro que foi sujeito esta parte da igreja (um dos quais dava acesso à tribuna dos comendadores).

A fachada principal, com portal no seu eixo, tal como a fenestração, são encimados por uma empena recortada. Adossada à fachada (do lado de Epístola) ergue-se a torre sineira. A fachada sul, tem no seu eixo um portal ladeado de fenestrações.

O interior do edifício encontra-se praticamente despido do seu património. Na nave, ergue-se um púlpito de pedra e capelas laterais junto do arco triunfal, onde se erguem estruturas retabulares de gosto proto-barrocos. No solo, ao longo da nave, é possível identificar um número significativo de tampas sepulcrais, quer do período medieval quer da Época Moderna (são conhecidas, desde as campanhas arqueologias de 1979 até aos dias de hoje, que em torno do edifício foram recuperadas estelas e partes de sarcófagos).

A capela-mor, de cobertura abobadada, tem rasgado nas suas paredes laterais, fenestrações e portais de frontão interrompido que dão acesso às dependências da igreja. Na parede testeira ergue-se um incompleto retábulo de gosto proto-barroco. Bastante repintado, o retábulo de estrutura vertical de três corpos e de feição arquitetónica. O central com o seu nicho e respetiva tribuna – que não corresponde ao modelo do restante do retábulo, possivelmente de outra proveniência. A ladear o corpo central erguem-se, intercolúnios, um espaço para imaginária que assentavam sobre mísulas. O entablamento e profusamente decorado com elementos que se podem identificar de ferronnerie e grotescos. Contudo, a estrutura retabular encontra-se incompleta, na sua parte superior falta o remate de talha, aliás como é habitual nesta tipologia de retábulo.

Séc. XIII/XVI/XVIII/XIX

Autor: Pedro Sanches (arquiteto, 2º metade do XVI); José Rodrigues Castilho; Augusto Sousa (séc. XIX); Filipe Tiago da Fonseca (entalhador, séc. XVIII); Bento Coelho da Silveira (sécs. XVII/XVIII).

NOTA HISTÓRICA

No alto de uma colina, a Ordem do Templo, enquadrado numa política de domínio do território fronteiriço, ergue uma fortificação que acabará por servir de sede da Ordem até ao processo de extinção, em 1314. Na realidade, este espaço geográfico assume uma importância geoestratégica desde o período da reconquista, levando mesmo, D. Afonso Henriques, em 1165, a doar as terras albicastrenses à milícia do Templo. Tal importância é confirmada nas primeiras décadas do século XIII, quando, em 1213, D. Pedro de Alvito, mestre da milícia do Templo, faz atribuição de uma carta de Foral, seguindo o modelo da Covilhã, aos povoadores de Castello Branco.

Ao longo de todo o período medieval, a vila de Castelo Branco, assume um claro destaque em relação aos diversos aglomerados populacionais desta região e que, inevitavelmente, estavam sob a alçada dos templários.

No reinado de D. Dinis, na sequência da extinção da Ordem do Templo e a criação da milícia de Nosso Senhora Jesus Cristo, todo o património que se encontrava arrolado como pertence aos templários passa para a posse da Ordem de Cristo, facto que levou a Comenda de Castelo Branco, pela sua importância e rendimento que proporciona, ficou ser reservada para a Mesa Mestral. Conforme salienta, Maria da Graça Vicente, nova realidade administrativa leva a um desenvolvimento e crescimento da vila, como se pode verificar já nos inícios do século XV, pelo mais antigo Tombo desta comenda da Ordem de Cristo.

Dentro do complexo fortificado, que tem origem templária e inserida no último reduto defensivo, a igreja de Santa Maria do Castelo e afirma-se como um polo aglutinador da urbe albicastrense. Conforme salienta a historiografia e os vestígios arqueológicos, este edifício estará assente sobre uma estrutura primitiva, segundo Joaquim Hormigo e Pedro Quintela de Oliveira, que remontará a um período pré-românico. Sendo posteriormente, reedificado um templo que é obra antiga que dizem ser dos templários (estas são palavras que se encontram no tombo de 1706).

Apesar de hoje nada subsistir da igreja medieval, é possível, a partir dos dados documentais remanescentes, realizar um esboço sobre a sua configuração. Conforme se pode observar pelo desenho de Duarte de Armas, a igreja de Santa Maria do Castelo, no início do século XVI, tinha uma planta retangular e uma cabeceira de configuração semicircular. Estava integrada na estrutura defensiva, onde parte da sua caixa murária (do lado norte) encontrava-se inserida na muralha, tendo junto da cabeceira (lado do Evangelho) a cisterna e o seu respetivo pátio, enquanto o corpo da igreja corre paralelemente à praça de armas.

O acesso ao interior do espaço religioso era efetuado através de dois portais, um na fachada principal e outro na fachada volta para o sul. No início do século XVIII, apesar dos danos e destruição a que este edifício foi sujeito, ainda se conservava o primitivo portal e pela sua descrição, em 1706, parece compaginar-se como os modelos adotados no período românico, sendo mesmo descrito da seguinte forma, em 1706:  guarnecido de um circulo de meia laranja de pedra fundado em quatro colunas (…).

São poucos os dados disponíveis que retratem este edifício até ao século XVII (as sucessivas destruições e campanhas de obras efetuadas ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX vão apagar praticamente todos os traços do primitivo edifício). Contudo, observa-se ainda a existência de tampas sepulcrais medievais e do início da época moderna e sabemos que terá existido, no meio do corpo da igreja, do lado da Epístola, junto púlpito e abaixo da porta travessa existia uma sepultura levantada sobre tres leoens de pedra tudo de quinze palmos de comprido e seis de alto, em qual esta esculpido o letreiro seguinte = aqui jaz a madre de Fernão Rodrigues Sequeira Mestre de Cavalaria de Aviz.

Recorde-se que D. Fernando Rodrigues de Sequeira (1338-1433), sepultado no Convento de Avis, foi Mestre da Ordem de Avis, que assumiu em 1386, e assumiu o cargo de regente do Reino quando D. João I lançou a ofensiva sobre Ceuta, em 1415.

Segundo a historiografia, embora sem dados documentais concludentes, a igreja de Santa Maria do Castelo, na segunda metade do século XVI, terá sofrido algumas obras de beneficiação, apontando-se como responsável por essa campanha de obras o arquiteto Pedro Sanches.

Contudo, em 1640, na sequência da Guerra da Independência, as tropas castelhanas destroem praticamente o edifício, ficando-se a saber que, entre os diversos danos acusados pelas tropas, a cobertura ameaçava o seu colapso, facto que levou, posteriormente, a uma campanha de obras que teve o patrocínio do monarca, D. João IV, dotando de 200.00 reis, cada ano, durante cinco anos, para a sua reedificação.

No final do século XVII, por intermédio do patrocínio do arcebispo de Évora, D. Luís da Silva Teles, Bento Coelho da Silveira produziu, em 1691, um conjunto de obras para a então vila albicastrense, como são as telas da Sé Catedral, a pintura do teto da capela do Paço Episcopal (atrib.) e as três obras para a Misericórdia (hoje à guarda do Museu Francisco Tavares Proença). Segundo a historiografia (embora não exista documentação nem obra), tem relatado que este pintor, adepto da nova pintura, terá executado um trabalho pictórico para a igreja Santa Maria do Castelo. Contudo, muitas dúvidas se levantam sobre este dado.

Depois da Guerra da Independência, será outro movimento militar que a ruína novamente o edifício. É durante a Guerra da Sucessão de Espanha que, em 1704, o exército franco-espanhol invade e ocupa Castelo Branco, acabando por destruir e incendiar a igreja de Santa Maria. Tal ato destruiu a cobertura, altares (retábulos de Santo António; São Jerónimo; Santo Cristo e Menino Jesus), tribuna, uma pintura dedicada ao Martírio de Santa Catarina, etc… Leia-se o que diz o auto de medição de 1706, as estruturas estavam aruinadas e quimadas e como também esta toda a igreja destelhada e de todo aberta pela invasão que os inimigos fizeram nesta villa (…).

Após este acontecimento, em 1706, é realizado um tombo da comenta (1706), para além do que já foi dito anteriormente, o registo revela mais alguns dados relativos ao edifício: tinha o corpo da igreja cerca de trinta e três metros de comprimento e sete de largura e a capela-mor e a sacristia formavam uns quadrados (…).

Sobre o lado do Evangelho, em frente à porta travessa, erguia-se huma tribuna de pedra feita ao moderno com cinco colunas de pedra sobre a baranda com dezasseis balaústre a qual tem mais dois arcos que se sustentam na parede (…). Esta tribuna privada estava destinada aos comendadores da Ordem de Cristo, podendo assim assistirem aos atos litúrgicos. Este espaço comunicava por intermédio de uma arcatura com a cerca do palácio dos Comendadores. Hoje, através o exterior, visualizamos parcialmente esse arco, porque essa tribuna acabou por ser desmantelado e o seu acesso foi entaipado por ordem do Almoxarife Manuel Rodrigues Nogueira.

O edifício era provido de cinco capelas, encontrando-se estas parcialmente arruinadas e uma dessas capelas existia desde o século XVII e que se podia identificar por uma lápide na sua parede: Esta capella mandou fazer Heitor Borralho de Almeida, vigário que foi desta igreja, a qual deixou por herdeira com a obrigação de uma missa cantada cada um anno. Jaz enterrado ao pé deste altar. Anno de seicentos e dez

Em setembro de 1728, decorrem obras na igreja, visto a escritura de juro do dinheiro das obras que foi tomado do boticário da vila de Castelo Branco, Manuel Leitão, por Agostinho Tavares de Sousa. Será nesta sequência que se encontra registada a presença do mestre entalhador Filipe Santiago da Fonseca. Segundo Francisco Lameira, por volta de 1730, este mestre executa o retábulo da capela-mor da igreja de Santa Maria, obra arrematada por ordem de Sua Alteza Real.

Em 1753, pela mão de vigário D. António Gomes Castelão, a igreja continua em obras, utilizando-se pedras da fortificação das as paredes do edifício. Nove anos depois (1762), temos outro relato de que a igreja voltou a ser assolada pelas forças franco-espanholas que invadiram as terras albicastrenses e utilizaram o templo de Santa Maria como caserna e cavalariça.

Apesar de não se conhecerem danos neste período, outra sorte teve o edifício durante as invasões francesas. Em 1807, com as tropas napoleónicas, a igreja de Santa Maria do Castelo foi completamente destruída, perdendo-se, mais uma vez, o espólio artístico da segunda metade do seculo XVIII. Mais uma vez, este edifício foi reconstruído.

Apesar das obras terem decorrido logo após ao malogrado episódio, a verdade é que estes trabalhos arrastaram-se por diversos anos, sobretudo devido às dificuldades financeiras. Em 1867, o edifício ainda mostrava os malefícios do início do século, o telhado do templo, segundo consta o auto camarário, estava completamente arruinado. A partir deste momento, leva-se a cabo uma enorme campanha de obras de forma a recuperar este espaço. Uma das primeiras ações foi efetuar uma terraplanagem, soterrando parcialmente a fachada voltada a norte e entaipando os portais laterais (um destes portais dava acesso à tribuna dos comendadores). Em 1871, leva-se a cabo a ampliação do edifício e a execução do seu campanário, ficando as obras a cargo de José Rodrigues Castilho e Augusto Sousa.

Em meados do século XX, o edifício é alvo de obras e durante o último quartel do século passado são efetuadas escavações que permitiram trazer à estampa um conjunto de vestígios de diferentes períodos históricos.

Referências Bibliográficas:

BOAVIDA, Carlos, “Castelo de Castelo Branco (19791984 e 2000): síntese dos trabalhos arqueológicos desenvolvidos e principais conclusões”, Revista Portuguesa de Arqueologia 15. Lisboa: DGPC, 2012, (pp. 195 ­218).

BOAVIDA, Carlos, Castelo de Castelo Branco: Contributo para o Estudo de uma Fortificação da Raia Beirã, Dissertação de Mestrado em Arqueologia. Lisboa: FCSH/UNL, 2009

GONÇALVES, Iria (coord.), Tombos da Ordem de Cristo, Comendas da Beira Interior Sul (1505), vol. V, Lisboa: Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2009.

HORMIGO, José, Visitações da Ordem de Cristo em 1505 e 1537. Amadora: 1981

HORMIGO, José, Arte e Artistas na Beira Baixa. s.l.: 1998.

LEITE, Ana Cristina, Castelo Branco, Lisboa, Presença, 1991.

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http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=848

Referências Documentais:

ANTT, Ordem de Cristo e Convento de Tomar, liv. 143