Ermida de Nossa Senhora de Mércoles

NOTA ARTÍSTICA

Afastado da cidade, o atual santuário de Nossa Senhora de Mércoles, assenta as suas atuais fundações num espaço pré-romano e romano. As campanhas arqueológicas levadas a cabo neste local ao longo das últimas décadas (achados que encontram depositados no museu Francisco Tavares Proença Júnior).

O atual edifico com as suas características góticas, tem uma construção que remonta, provavelmente, ao século XIV, tendo em linha de conta o perfil das portas das fachadas laterais, onde os seus arcos apontados remetem para essa cronologia. Contudo, o edifício sofreu diversas campanhas de obras. Dos finais do século XV – provavelmente do último quartel – é renovado o portal principal. Composto por um gablete com três arquivoltas, a estrutura destaca-se pela ornamentação vegetalista dos capitéis. Apesar da matéria prima utilizada para este portal não ser o melhor para o tratamento plástico da escultura, a decoração dos capitéis seguem um figurino gótico que revela ser conhecedora das formas presentes no estaleiro de Santa Maria Vitória e que se disseminaram, desde o inicio do século XV, pelo território português.

A capela-mor denuncia uma campanha de obras nas primeiras décadas do século XVI. É coberta por uma abóbada de terceletes com as chaves – polar e e dos terceletes – decoradas por motivos vegetalistas. No lado do Evangelho, encontra-se a porta de acesso à sacristia.

Na nave, sob o altar colateral do lado do evangelho (parede que ladeia o arco triunfal) ainda é visível o que resta de um conjunto de pintura mural quinhentista.

Apesar de se encontrar bastante deteriorado e fragmentado, devido sobretudo às intervenções do séc. XVII (1609) e colocação de retábulos sobre estas pinturas, ainda é visível na parte superior uma representação da Pietá, onde a representação de Cristo e da Virgem apresenta pouco realismo, denotando o cariz regional do seu autor.

Num plano inferior encontram-se duas cenas de menores dimensões, possivelmente um desses fragmentos representa São Francisco, enquanto o outro mostra Cristo na cruz a lançar os estigmas, possivelmente, trata-se da imposição dos estigmas a São Francisco.

Num nível mais inferior, junto ao altar, surge outra representação aureolada, possivelmente, trata-se da representação da Virgem com o Menino.

Ainda no campo da pintura, destaca-se o retábulo-mor e pintura de gosto epi-maneirismo albicastrense. Data dos anos finais do século XVI ou já de início do século XVII, o conjunto é constituído por cinco pinturas sobre madeira. Os dois painéis maiores, ladeando um nicho central com a figura da Virgem, representam a Anunciação e a Assunção da Virgem, respetivamente, e atestam, apesar dos efeitos nefastos de um recente e mal acautelado «restauro», um pincel erudito e de bom nível, já com muitas e bem digeridas influências italianizantes. Há detalhes que revelam, de facto, uma mão segura, no lançamento serpentinado do arcanjo, na pose agitada dos anjinhos ou no cuidado de acabamento de alguns acessórios, caso do florero da Anunciação.

A predela é repartida em dois painéis, nos quais se representam. Em meio corpo, as figuras de um Apostolado. No remate superior do retábulo, de forma triangular, figura o Padre Eterno (tábua muito repintada) em meio corpo, erguendo a Sua mão direita em gesto de bendição e repousando a esquerda em globo terráquio, representação iconográfica muito comum, ao tempo, em retábulos com idêntica configuração.

Um dado histórico, quando as guerras da Restauração eclodem (1641-1668), uma mesa conscienciosa da irmandade da senhora de Mércules mandou pintar duas telas (Sant’Ana e São Joaquim na Porta Dourada e Esponsais da Virgem) a um artista local de medíocres recursos (telas essas ainda existentes na igreja), para as colocar sobre as pinturas do retábulo, assim as protegendo.

No século XVIII leva-se a cabo a reforma da fachada principal, construindo-se os dois torreões quadrangulares. Do período barroco é a construção da escadaria de acesso ao templo.

Data: XV/XVI/XVII/XVIII

Autor:  Bartolomeu Martins Carrilho (1726); Tomás Duarte Dinis (1726) – carpinteiros

NOTA HISTÓRICA

Situada no termo da cidade de Castelo Branco, a ermida da Nossa Senhora de Mércoles revela uma ancestralidade atestada da época pré-romana e romana, facto revelado pelos inúmeros achados arqueológicos que se revelaram no local. Fernando Almeida, coloca mesmo a hipótese do topónimo Mércoles se encontrar relacionado com um culto de origem pré-romana, mais tarde cristianizado, e a hipotética existência de um culto a Mercúrio no local onde hoje se situa a ermida em causa.

Apesar destes dados, a construção que vemos data dos finais do século XIV, embora alguns autores (antigos e modernos) referem ter uma fundação templária: Affirma a tradiçaõ, que fora aquella Casa fundaçaõ dos Cavalleiros Templários, antes da sua extinção; o que poderia bem ser, porque tiveraõ muytas Villas, e Castellos por aquellas partes (…).

Segundo refere Frei Agostinho de Santa Maria, o edifício foi construído no mesmo local onde apparecéra a Senhora na quelle mesmo sitio, em que hoje a vemos venerada, em o tronco de huma azinheira (…) hoje se vem vestigios nas coftas da Capelamór daquela Igreja. A imagem era de grande fermosura1, he de talha, excellentemente obrada; a matéria he pao, esta estofada, não tem mai que tres palmos

No século XV (possivelmente durante o último quartel), o edifício é alvo de uma campanha de obras, como denotam as formas vegetalistas que se plasmam nos capitéis do portal. Do mesmo modo, no decorrer do século XVI, no momento de maior fulgor de Castelo Branco e do seu algoz, o edifício vê ser requalificada a sua capela-mor e como é apanágio da milícia da Ordem de Cristo, a obra ficou às expensas do comendador. É também deste mesmo período que datam as pinturas murais.

Em meados do século XVI, chega-nos a notícia que, Rodrigo Rebelo, deixa no seu testamento a intenção de instituir um convento para seis religiosos. Contudo, a sua vontade testamentaria nunca chegou a acontecer.

A partir do século XVII, como voto de agradecimento pela interseção da Senhora de Mércoles no findar da peste (1601) e da praga de gafanhotos (1638), realiza-se anualmente uma romaria, com as suas festividades, ao santuário. Na sequência destes episódios, o complexo da Senhora de Mércoles, teve quatro casas que servem de se recolherem os romeiros

Quando as guerras da Restauração eclodem (1641-1668), e que têm repercussões nesta região, a irmandade da senhora de Mércoles mandou pintar duas telas (Sant’Ana e São Joaquim na Porta Dourada e Esponsais da Virgem) a um artista local de medíocres recursos (telas essas ainda existentes na igreja), para as colocar sobre as pinturas do retábulo, assim as protegendo de um eventual saque ou destruição.

No século XVIII, são acrescentadas ao edifício as galilés laterais e as torres quadrangulares, elementos que acabaram por alterar a fisionomia do espaço. Isso não escapou ao Frei Agostinho de Santa Maria, referindo que a igreja é de muyto boa fabrica & architectura, tendo um pórtico de consideráveis dimensões e de obra sálomonica. Para além do destaque que realiza aos azulejos que cobrem as paredes da igreja, o autor refere a importante trabalho pictórico que cobria a igreja e respetivo autor, referindo-se a ele nestes moldes: O tecto (destruído em 1857) laqueado & pintado de excellente pintura, e aonde se vé a historia da vida de N. Senhora, desde a sua Natividade até a Assumpçaõ. E supposto que se naõ conhece o nome do Author, verdadeiramente merece tello entre os da fama. 

Referências Bibliográficas:

ALVES, Tarcísio Fernandes – O Santuário de Nossa Senhora de Mércoles. Castelo Branco: Gráfica de São José, s.d.;

CARDOSO, J. Ribeiro – Castelo Branco e o seu Alfoz, Achegas para uma Monografia Regional. Castelo Branco: Livrarias Semedo e Feijão, 1953; Compromisso da Confraria de Nossa Senhora de Mércoles em Castelo Branco. Coimbra: 1887;

COSTA, António Carvalho da – Corographia Portugueza… Lisboa: Officina de Valentim da Costa Deslandes, 1706 – 1712;

GARCIA, José Manuel e LEITÃO, Manuel – «Inscrições Romanas do Norte de São Martinho – Castelo Branco» in Cadernos de Epigrafia. Castelo Branco: Centro de Estudos Epigráficos da Beira, 1982, n.º 6;

HORMIGO, José Joaquim Mendes – Arte e Artistas na Beira Baixa. s.l.: Edição do Autor, Janeiro 1998;

LOBO, Ernesto Pinto – Nossa Senhora de Mércoles, Resenha Histórica. Castelo Branco: 1971; M

MARIA, Frei Agostinho de Santa – Santuário Mariano… Lisboa: Officina de António Pedrozo Galram, 1711, tomo III, pp. 80-83;

ROXO, António. Monographia de Castello Branco. Elvas: Typographia Progresso, 1890;

SALVADO, António – Elementos para um Inventário Artístico do Distrito de Castelo Branco. Castelo Branco: Museu Francisco Tavares Proença Júnior, 1976;

SANTOS, Manuel Tavares dos – «Igreja de Nossa Senhora de Mércoles» in Beira Baixa, Castelo Branco, 1953, n.º 750;

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=2505

SILVA, Joaquim Augusto Porfírio da – Memorial Chronologico e Descriptivo da Cidade de Castelo Branco. Lisboa: Typographia Universal, 1853;

Referências Documentais: