Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição

NOTA ARTÍSTICA

De claro gosto barroco, a igreja de Alcains, segue, nas suas linhas essenciais, um modelo em bastante em voga pelo território raiano. De nave única, coro alto e capela-mor, a igreja matriz que se ergue entre o casario de Alcains, tem na sua fachada principal um portal tipicamente barroco, com o seu frontão interrompido, sobre o qual se abre um nicho, que alberga uma escultura do seu orago, sendo esta ladeado por dois varandins que se abrem diretamente para o coro alto. A fachada toma maior imponência pelas sineiras que apresenta a ladear o tramo central.

O interior é composto de uma única nave, coberta por uma imponente abóbada. A ladear o arco triunfal encontram conjunto de retábulos de inspiração rococó. destacando-se as imagens setecentista de Cristo na Cruz e uma Nossa Senhora do Rosário.

A capela-mor, com uma cobertura em abóbada de madeira tem um ciclo pictórico de dedicado à Virgem. Ao centro a representação do monograma da Mãe misericordiosa e ao longo do seu perímetro dispõem-se os símbolos da Imaculada Conceição. O retábulo-mor, de dimensões consideráveis, apresenta um estilo joanino (parte do retábulo perdeu-se com as intervenções do século XX).

Na sacristia, anexa à capela-mor, encontram-se um conjunto de elementos de interesse, podendo-se destacar um conjunto de aras romanas, uma pedra tumular seiscentista e um conjunto de pinturas sobre tela (certamente reaproveitamento de bandeiras) com claro destaque para a tela com o tema Deposição da Cruz e um Batismo de Cristo.

Data: XVII/XVIII

Autor: João Domingues do Valle, pedreiro (1754)

NOTA HISTÓRICA

A construção da igreja matriz de Alcains, segundo refere Florentino Beirão, teve o seu início no século XVII. Porém, a obra arrastou-se no tempo e só foi terminada já no século XVIII. Da primitiva igreja não há memória material, mas a descrição feita na Visitação efetuada por frei António de Lisboa, em 1536, permitiu conhecer como realmente se configurava este espaço e o seu estado no século XVI (transcrição elaborada no final).

O que atualmente se pode contemplar é já uma construção de contornos barrocos. Fazendo jus à cronologia apontada pela historiografia, em 1642, a coroa terá realizado uma doação de 140 reis para a execução do teto da igreja. Contudo, isso não terá resolvido os problemas presentes no edifício, visto que as Memórias Paroquiais, de 1758, referem que o edifício ainda não teria sido terminado – a igreja estaa por acabar de fazer, só tem paredes e altares feitos. hum principal he o altar mor que tem a sua tribuna dourada e em seu trono está colocado a imagem de Nossa senhora da Comceysam, tem mais cinco altares – hum do nome de Deus, outro de Nossa Senhora do Rozário, outrp de sam Francisco outro das Almas e outro de Sam Miguel (…) acabando a descrição referindo que a igreja é de nave única.

Apesar da Memória Paroquial referir, a igreja estaa por acabar de fazer, significa que, João Domingues do Valle, pedreiro do reino de Castela e morador na villa de Naves Partido de Alcântara, ainda continuava o seu trabalho de edificação, tal como refere a escriptura de contrato e obrigação 1754 (Cf. HORMIGO, Joaquim).

No final do século XIX, o edifício sofreu algumas transformações, sobretudo ao nível dos seus retábulos e respetivas devoções, tal como acontece com o culto a Nossa Senhora de Lurdes ou o culto ao sagrado Coração de Jesus (devoção instituída na igreja primeira metade do século XX)

Transcrição da Visitação das igrejas do Mestrado da Ordem de Cristo, efectuada por frei António de Lisboa, 1536 (conf. GONÇALVES, Iria. e a ANTT – Ordem de Cristo e Convento de Tomar, liv. 268.  )

E pello dito modo segundo forma do Regimento foi visitada a egreja de Nossa Senhora do logar de Alcainz que he em termo de Castelo Branco de que he comendador Luis de Saldanha ha qual egreja estaa no dito logar e o corpo della he de comprido Xdij varas e de larguo seis esta bem madeirada e forrada de castanho e as paredes sam todas de cantaria e he ladrilhada de tijolo e cruzeiro he de pedraria de bom tamanho e toda a fromtaria e asy as paredes atee as portas primcipaes pimtados de jmagees e no cruzeiro tem hum crucifixo com Sam Joham e Nossa Senhora de onestas pinturas e arrezoadas.

Os altares do cruzeiro sam forrados de azulejos e com seu degrao deante e de bom tamanho o da mãao direita he de Samtiago e Samto Amtonio e o da mao esquerda he de Sam Brás e Samta Caterjna e estas jmages estam pintadas na parede. E neste corpo da egreja estam trés pias de pedra-a saber-a mão esquerda de tras a porta huua de bautizar fechada com seus oleos e as portas travessas a cada hüua sua de agoa bemta/

Item a capella da dita egreja he de comprido cimquo varas e de largo quatro e he forrada de castanho e lageada e tem tres degraos ante o altar moor que he de comprido duas varas e terça e de alto hia vara forrado d azulejos Em o quall esta huu bom retavolo quasi novo com seu guarda poo e grinalda por cima dourada e no meyo hüu escudo com as armas do comendador he de tres paineys ho do meyo de Nosa Senhora da Graça e o da mão dereita de Sam Sebastiam e o da mão esquerda de Samta Luzia e tem seu bamco e esta bem acabado com sua corrediça de pano de linho e no mesmo altar tem outra jmagem de Nossa Senhora de vulto.

tem a mão esquerda tem huu sacrarjo fechado metido na parede com sua corrediça e cortina de panno de estopa pintado con dous anjos com os martirios homde tem continuadamente hua alampada aceza aa custa do comendador que pera ella daa seis alqueires dazeite cada anno e aqui estaa sempre o sacramento.

Item outro sy a parte esquerda tem hua casa da samcristia que he de larguo duas varas e he bem medeirada e forrada de castanho. Tem hüu alpender e em a porta travessa do sol que he de comprido quatorze varas e de largo duas varas e duas terças e esta bem cuberto e madeirado de castanho.

Item e parte dereita da dita egreja junto da porta primcipall tem huu boom campanairo de pedra que se serve per fora per quetorze degraos honde estam dous synos de bom tamanho.

Prata e hornamentos que ha nesta egreja

Item huua cruz de prata bramca com seu crucufixo que custou vinte mill reis e he do conceiho.

Item huua custodia de prata bramca de boom tamanho bem obra da do Concelho Item huu caliz dourado esmaltedo novo que deu o comendador João de Saldanha. Item hua cruz de latão

Item dous pares de galhetas Item dous castiçaes gramdes e ij paquenos todos quatro darame bõos.

Item huua bacia d arame dalampada

Item hua Roda com doze campainhas tem outra campanha no meyo da egreje Item outra campainha de mão

Item huua caldeira de agoa bemta

Item huu tribulo e hue bacia darame

Item hu paleo de damasco crejsim que comprou o Concelho.

Item huua vestimentas de damasco verde Rota sem savastro

Item outra vestimenta de damasco Roxo com savastro de veludo alaranjado framja de areeios vermelho e Roxo a amarello perfeita e booa

Item outra vestimenta de damasco bramco com barras de veludo preto nova e perfeita

Item hüua capa de borcadilho da India nova framjada de seda de cores

item quatro vestimentas de linho jaa husadas

Item huu fromtall de charnalote amorelo Roxo e verde framjado das mesmas cores

Item huu fromtail preto da coresma com hos martirios pimtados

Item dous fromtaes hu de bambell e outro d,arvoredo

ltem dous frontaes pequenos de bambell velhos/

item seis toalhas do altar moor

Item pera os outros altares seis

Item duas pedras daras

Item seis pares de corporaes

Item dous espelho

Item dous livros missaes e saber – huu egitanjense e outro Romão e huu sacramental hu brinjairo gramde e de coro e romão e huu baptisterio e do oficio da função e huu caderno apomtado com ha missa de Nossa Senhora.

Item huua caixa de corporaes e iJ d,ostias

Item hüua arca de pinho velha de hornamentos.

he capelãao desta egreja posto pello comendador huu Gasper Fernandez cleriguo e nom comfirmado he obrigado a dizer missa cada dia somente hu dia na semana tem de foiga e haa dez ou doze annos que serve.

Item tem de mantimento cada anno a custa do comendador corenta alqueires de triguo e outros corenta de cemteyo e a metade da dizimo do vinho que Renda huu Anno por outro dez almudes e mill cento e oytenta reis em dinheiro e hu alqueire dazeite e outro de sall e huua marrãa ou cemto e cimcoenta reis por ella e o pee do altar que vall tres mil reis e dous alqueires de trigo pera osteas e dous almudes de vinho pera as galhetas.

Item A cera qua se gasta na dita egreja he a custa do Concelho somente o comendador he obrigado dar e daa dous cirios pera quando dam o sacramento. Nesta freguesia e comenda ha cemto e oytenta ou cemto e noventa fogos e serão mais de mjll al mas de comfissão.

O bispo nem seu visitador nom leva colheita em todo o termo de Castelo Bramco por que as egrejas da villa pagam por tudo comente da visitação de cada egreja. Esta comenda Remde pera o comendador cada annocento e sesenta e sento e setemta mill reis e nelle he obrigado a fabrica da capella e ornamentos e os fregueses ao corpo da egrejal

O de que esta egreje tom nocessdade he a sabar.

Item huus almareos de castanho na samcristia pera ter os ornamentos

Item huuas grades baixas no cruzeiro e seram de castanho bem feitas

Item huua vestimente perfeitade chamalote que serve na Coresma/

Referências Bibliográficas:

BEIRÃO, Florentino Vicente, História de Alcains, II. Coimbra: Alma Azul, 2004.

GONÇALVES, Iria (coord.), Tombos da Ordem de Cristo, Comendas da Beira Interior Sul (1505), vol. V, Lisboa: Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2009.

HORMIGO, José, Visitações da Ordem de Cristo em 1505 e 1537. Amadora: 1981

HORMIGO, José, Arte e Artistas na Beira Baixa. s.l.: 1998.

INFANTE, Cónego Franco, Património cultural de Alcains. Alcains: Matriz de Alcains, 1992.

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=9302

ROQUE, José Sanches, Alcains e a sua história. Castelo Branco: Tipografia Semedo, 1975.

Referências Documentais:

ANTT, Ordem de Cristo e Convento de Tomar, liv. 268.

ADCTB, Cartório Natórial de Castelo Branco, M2. Lv. 38, fl 31v