Igreja Matriz

NOTA ARTISTICA

Igreja paroquial de contornos rurais, é na sua grande medida um edifício do século XVIII. Data em que existiu uma intervenção arquitetónica, aliás como denuncia a inscrição que se encontra sobre o portal: “ECCE / TABERNACVLVM / DEI. APXXI / MDCCLXIV”. Com esta obra, alterou-se profundamente a estrutura arquitetónica. Apesar desta intervenção, ainda se conserva do período medieval – embora com alterações – a estrutura murário da capela-mor.

A fachada principal, com empena muito acentuada e torre com dupla sineira. De uma única nave, com a capela-mor mais baixa e estreita e sacristia adossada, apresenta uma cobertura em masseira. Retábulos barrocos em talha dourada denunciando desde logo o estilo nacional.

Há a destacar, que neste edifício existiu um Calvário em madeira que se encontrava, em pleno século XVI, sobre o arco triunfal: O grupo, é constituido por três peças, Cristo na Cruz, Virgem Maria e São João, o a sua composição, o tratamento plástico das carnadura a rigidez de movimentos e a falta de naturalismo, revelam esta obra como um raro espécime desta temática em território nacional e que é datado do século XIII. Hoje, o grupo escultórico encontra-se exposta na casa-museu da Santa Casa da Misericórdia de Proença a Velha.

Do século XVI são as pinturas a fresco de gosto renascentista que se encontram atrás do retábulo. Esta descoberta recente permite perceber os alcances do gosto all antico que também alcançou este território, mas que infelizmente foi desbravado pelo séculos seguintes, sobretudo o final do século XVIII e XIX. Na parede do lado do Evangelho, atrás do retábulo, encontra-se  um porta-óleos decorado no facial com um fresco do segundo quartel do século XVI que representa a Imago Pietatis (o Senhor flagelado antes de ser apresentado à multidão). É boa pintura renascentista, de desenho correcto, com forte pathos dramático do torso e da cabeça sofredora, inspirada embora num modelo de iconografia sacra medieval. A iconografia desta Imago Pietatis integra-se, de facto, numa linhagem de representações estudada pelo grande iconólogo Erwin Panofsky a partir dos ícones da Crucificação e do Cristo Pantocrator, com os quais partilha a nudez do torso e o ângulo de inclinação da cabeça, bem como o esquema do tronco martirizado.

A figura de Jesus Cristo, que nestas arcanas versões surge desfalecida, alude a um preciso momento biográfico vinculado à Paixão de Cristo sem se tratar de uma cena bíblica específica – mantendo a ambiguidade deste tipo de representações piedosas, onde a tónica catequizadora como intermediária do fervor e da oração se manifesta como maior linha de força temática. Com o final da Idade Média e o dealbar do Renascimento, existe uma adequação deste tema arcano a um novo sentido humanizado e sereno. A Imago Pietatis ganhou, assim, uma dimensão humanística e espiritualizada, que se tem interpretado como ligada ao franciscanismo renovado e aos sectores da Devotio Moderna. Além da Imago Pietatis, este fresco do porta-óleos de Proença-a-Velha tem inclusão complementar de grottesche clássicos, fantasistas, de tradição renascentista, com figuras híbridas segurando escudo central com as chagas da Paixão.

Data: XVI/XVII

Autor: S/N

NOTA HISTÓRICA

A Visitação realizada por frei António de Lisboa, em 1537, descreve o edifico desta forma:

“Em os nove dias do mes de Outubro de 537 foi visytadaa egreja de Nossa Senhora da Villa de Proençe de que era comendador Dorn Pedro de Mascarenhas Aquall egreja esta huu tiro de pedra da villa e do castello o corpo da quall estae muito mall Repairado primcipallmente o telhado e madeiramento porqua perece mais lagar que egreja porque o mais delle estaa descuberto foi ja ladriihada e com as covas he todo desnamchado porque por cada cova se pagam dozentos reais e leva os o comcelho porque he obrigado a coregeer o corpo da egreja e por ser muito gramde e elles pobres o nom fazem. Tem este corpo de egreja dezasseis varas de comprido e sete de larguo e em o logar acustumado tem huua pia de bautizar e huu pulpito de castanho esta começedo de forrar e tem ja obra de duas varas forrado de castanho de noovo.

Item o cruzeiro he de pedraria muito baixo de maneira que faz a capela muito escura em demasia

Item os altares de fora -a saber- o de mäo/dereita he de Sam Tiaguo tem sua imagem pintada na parede e antigua e por cima hum guarda poo feito como chemjnee com esteios de pão que chegam abaixo e he obra antigua e mal pimtados e o da mão esquerda he de Sam Miguell pintado na parede tem hum Jmegem de Noss Senhora da Graça de vulto e outra de Sancta Clara e estes altares sam ambos pintados por fromtaes. Item alem destes dous altares quasy no meyo da egreja da parte esquerda tem outro al tar metido na parede e estam nelle a jmagem de Santo Amtonio e de Sam Sebastiam de vulto.

Item em cima no meyo do cruzeiro tem hu crucifixo com Nosa Senhora e Sam Joham e Sam de vulto

Item A capella desta egreja he de comprido seis var ase de larguo quatro e meya e tem seus poiaes em Redomdo e he toda de camto lavrada torrada per cima de castanho e lageada per baixo do altar moor teem diante tres degraos de parede a parede e he de comprido duas varas/ e do alto huua vera e de largo outra vara escassa e tem hum boom Retavolo quasi novo e he de boas pimturas e tem seus pilares coroamento de guarda poo dourados per partes e he de tres painees o do meyo he d’Anunciaçam de Nossa Senhora e o da mão dereita de Sam Joham Bautista e o da mãao esquerda de Sam Pedro ha da largura do altar estreito por a largura da capella que tendo claridade he grande e boa e de bom tamanho.

Os ornamentos e prata e couss que tem esta egreja

Item huua cruz de prata que pesa nove marcos e he do concelho

Item hua custodia de prata que pesa cimquo marcos que deu o concelho

Item hum boom calez dourado que deu o Concelho item outro calez de prata que deu o concelho

Item tres castiças bons d’arame tem duas cadeiras d’agoa benta i

tem hu tribolo d’arame quebrado/

Item huua alampada de framdes

Item duas campeinhas na egreja

Item huqa capa de damasco cimzemto com savastro de veludo amarello franjada de Retros branco e vermelho forrada de bocasym vermelho e haja velha.

Item huua vestimenta de cetim alionado com savastro de cetim amarello framjado de cadarço branco a vermelho velha que deu o Concelho.

Item tres vestimentas brancas de linho jaa husadas.

Item huu fromtall de veludo azull framjado de Retros amarelo e verde

Item tem dous synos boons em huu campanario de pedraria apartado da egreja a junto della.

Item he ora vigario desta egreja frei Diogo Fernandez freire da dita hordem e he obrigado dizer missa cada dia tiramdo huum na semana

Item tem de mantimento bj reis em dinheiro e dous moyos de trigo e das pipas de vinho ao pee do altar/

IItem os fregueses deste egreja sam cemto e trimta e avera mais de quinhentas almas de cura.

Remde esta egreja com Sam Miguell de Acha que esta em termo desta vila pera o comendador Huus annos por outros cento e cinquenta mjll reis o qual he obrigado a corregimento da capella e a fabrica e ornamentos

O de que esta egreja tem necessidede he – a saber

de se alevantar o arco do cruzeiro em tamta camtidade que dee claridade aa capella. Item de huqa vestimenta de seda de cores para as festas

Item huum fromtall de chamalote pera as festas

Item huum paleo ao menos e chamalote de cores

Item de huua arroba de çera pera toches e camdeas

Item de vinho pera a galhetas

Item de pso para as osteas

Item de dous pares de galhetas/

Item de huda vestlmenta de chamelote preto pera a Coresma

Item hu fromtall prsto pera a Coresma

Item hud tribolo de metall

Item hud missal mixto tem corporses b0os

item huua corediçe pera guerde do poo do Retavolo

Referências Bibliográficas:

GONÇALVES, Iria, “Proença a Velha, inícios do século XVI: os bens e os direitos de uma Comenda da Ordem de Cristo na Beira Interior”. Ordens Militares: guerra, religião, poder e cultura– actas do III Encontro sobre Ordens Militares. Palmela: Colibri – Câmara Municipal de Palmela,1999, Vol. II, p. 29-4

GONÇALVES, Iria (coord.), Tombos da Ordem de Cristo, Comendas da Beira Interior Sul (1505), vol. V, Lisboa: Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2009.

HORMIGO, José Joaquim M., Visitações da Ordem de Cristo em 1505 e 1537, Amadora, 1981.

MENDONÇA, Manuela, Proença-a-Velha. Uma Povoação com História. Edições Colibri, 2000.

http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=4804

Referências Documentais: